Juan Diego. – Os missionários franciscanos mantinham centros de catecismo. A um deles, no convento do bairro Tlatelolco, ia para a Missa e para a catequese um índio.

“Verdadeiro retrato de Juan Diego”. Óleo sobre tela, anônimo, no museu da Basílica de Guadalupe.

Ele pertencia á raça asteca. Nasceu por volta de 1474 no povoado de Cuauhtitlán, próximo da Cidade do México. O índio chamava-se Cuauhtlatoatzin. Em 1525, toda a pequena família converteu-se ao catolicismo, recebendo ele no batismo o nome de Juan Diego, sua esposa o de Maria Lúcia e seu tio o de Juan Bernardino.

Juan Diego era um macehual, isto é, um homem do povo. Da casta dos tlamenes, a mais desprezada entre os astecas. Os tlamenes dedicavam-se aos trabalhos mais humildes e difíceis.

Em criança freqüentara a escola, obrigatória para todos os astecas.

Era apelidado de “peregrino”, pelo pouco que tratava e conversava com os demais e porque sempre andava só. Não tinha filhos. Em 1529 ficou viúvo.

Levava muito a sério a espiritualidade católica da época. Todos os domingos caminhava, ida e volta, 24 quilômetros, da sua aldeia Tulpetlac para participar da Missa, comungar e aprofundar a instrução religiosa em Tlatelolco.

A morte da esposa uniu-o ainda mais em afeto e fé a seu tio, com o qual passou a assistir à Missa e comungar também aos sábados em honra de Nossa Senhora. Para isso tinha de se levantar muito cedo para poder voltar à hora do trabalho, pois a capela estava a 12 quilômetros de onde morava.

Dizia ter visto a Mãe de Jesus nos dias 9, 10 e 12 de dezembro de 1531.

A cidade de México (Tenochtithán) em 1628. E localização das outras cidades segundo mapa de 1519

Com seu caráter introvertido, não é tão surpreendente que tivesse visões e acreditasse receber revelações…

Depois que pensou ter visto a Mãe de Jesus, Juan Diego, em companhia do seu tio, deixou sua aldeia e sua casa e passou a morar num quartinho contíguo á ermida feita pelos índios no Tepeyac. Lá viveu dezessete anos, até os 74 anos, em 1548, quando foi morar definitivamente na casa do Pai em companhia Daquela que tanto amara em vida.

Falecido em 1544, aos 84 anos, foi enterrado na própria ermida, junto a seu tio Juan Bernardino. Foi beatificado em 1900 pelo Papa João Paulo II, durante a segunda visita papal ao México.

Uma História Do Século XVI. — A incrível e formosa história consta por abundância de documentos, direta e indiretamente, de indígenas, mestiços e espanhóis. Muitíssimas são as fontes, tradições, informações e documentos antigos que registraram os fatos de dezembro de 1531. São escritos, cartas, anais, notícias, crônicas, pinturas…

Entre os mais antigos e importantes relatos, em língua asteca, destacam-se três. O Nican mopohua de Antonio Valeriano, um sábio indígena que o escrevera sozinho ou em equipe, ou apenas copiara e organizara em um só texto diversos testemunhos e informações.

Quadro de Miguel Cabrera, no Museu da Basílica de Guadalupe, representando a primeira visão.

Destaca-se também o Nican motecpana, outro livro que mais parece á reunião de vários outros escritos feita por um autor indígena diferente. Estes dois livros foram escritos na primeira metade do século XVI, imediatamente contíguos aos fatos relatados.

O terceiro destaque é o livro publicado em 1649 por Luis Lasso de la Vega, religioso encarregado da Igreja de Guadalupe. Este livro se constituiu no mais importante e elaborado documento sobre os acontecimentos de dezembro de 1531.Nican mopohua e Nican motecpana são precisamente as palavras que iniciam a publicação de Lasso de la Vega: “Aqui se conta, aqui se ordena”…

As Visões. — No dia 9 de dezembro de 1531, Juan Diego, então com 57 anos, dirigia-se, como de costume aos sábados, ao convento dos franciscanos em Tlatelolco. Era madrugada, pelas seis horas, quando perto do monte Tepeyac acreditava estar ouvindo o canto de pássaros e uma voz que o chamava afetuosamente.

“Porventura sou digno do que ouço? (…) Onde estou? Acaso estou onde disseram nossos antigos, nossos ancestrais, nossos avós, a terra das flores, a terra de nosso sustento, já é aqui a terra do céu?”

Era o modo de falar indígena que Laso de la Vega preservou…

Juan Diego foi procurar quem o chamara e de onde vinham sons tão agradáveis.

O franciscano Frei Juan González traduz as afirmações de Juan Diego para o Bispo Dom Juan de Zumárraga, que fica muito… desconfiado.

Acreditou que estava lá visível uma jovem Rainha, de uns 15 anos, resplandecente, revestida pelo sol, com estrelas no manto, com a lua sob seus pés. Ela teria dito ser a Mãe do verdadeiro Deus e que muito desejava que ali fosse construído um templo, para que pudesse ajudar os que a invocassem. E teria pedido ao índio que fosse transmitir esse desejo ao bispo da cidade.

O bispo em nada acreditou. Pensou que era tudo astúcia de índio para conseguir uma igreja mais perto…Dia 10 de dezembro, domingo. Juan Diego explica à jovem Mãe do verdadeiro Deus que o bispo considera invenção de índio todo esse projeto de construir uma nova igreja… Então a jovem Rainha teria pedido que voltasse e insistisse.

Mais uma vez, Juan Diego voltou à casa do seu bispo. Depois de ouvi-lo longamente, o bispo continuou sem dar-lhe crédito. Não seria simplesmente um sonho, uma fantasia, ou até uma história asteca envolvendo a deusa da fertilidade cujo templo de fato se erguera nos arredores do Tepeyac? Juan Diego aprendera sobre a Mãe de Jesus nas aulas de catecismo. Talvez pensasse Nela ao passar por ali. Talvez desejasse vê-La, talvez se auto-sugestionasse. E a viu, como a imaginava.

Óvalo com óleo sobre tela, por Miguel Cabrera, representando segunda visão quando a jovem Rainha teria barrado o caminho pelo que Juan Diego queria fugir.

Uma mistura dos deuses astecas e a descrição do Apocalipse… Para o cultíssimo Dom Juan de Zumárraga a coisa estava clara: Juan Diego, devoto e sensível, teve uma alucinação. Seu inconsciente projetou sua religiosidade e desenvolveu uma linda e desejada história, pela qual ele foi se deixando levar…

No dia seguinte, 11 de dezembro, Juan Diego não foi ao Tepeyac, pois ficou auxiliando seu tio, Juan Bernardino, que ficara gravissimamente doente pela varíola.Na terça feira, 12 de dezembro, bem cedo, Juan Diego foi buscar um sacerdote para ministrar os últimos sacramentos ao tio, que certamente estava “nas últimas”. Ao chegar ao pé do Tepeyac, quis desviar por outro caminho para não encontrar-se com a jovem Rainha e não chegar tarde com o sacerdote… Mas a jovem Rainha teria lhe barrado a caminhada, no local onde hoje se ergue á igreja de “El Pozito”.

Ele apressou-se a contar-Lhe sobre o doente. Ela teria respondido: “Não estou aqui Eu que sou tu Mãe? Não te aflija a doença de teu tio, pois ele já sarou”.

“Revitalização” de Juan Bernardino, que também teve a visão de Nossa Senhora de Guadalupe, da que tanto lhe falara Juan Diego…

O Bispo Pede Uma Prova. — Após a “revitalização” de Juan Bernardino, que tanto surpreendeu aos médicos espanhóis e da que todos falavam, Dom Juan de Zumáraga passou a pensar: Aquelas visões não poderiam ser especialmente providenciais? Mas nesse caso a jovem Rainha teria de apresentar uma prova: um milagre, a “assinatura” de Deus, precisamente relacionada com as visões de Juan Diego. A “revitalização” de Juan Bernardino parecia-lhe, com uma certa teimosia típica dos bascos (Zumárraga), insuficiente.

Alias, Dom Juan de Zumarraga já tinha dito na segunda visita de Juan Diego que o milagre era necessário para poder-se dar qualquer atenção a essas visões… Juan Diego, animado com o grande consolo da saúde do tio que a Senhora lhe assegurava, animou-se a contar à Rainha a exigência do bispo.E naquele instante… Repentinamente surgiram variadas e magníficas rosas, lá, onde o índio estava, no alto do monte Tepeyac.“O alto da colina não era lugar onde brotassem flores de qualquer espécie, porque havia muitas ervas daninhas e era dezembro, quando o gelo estraga tudo”.

Juan Diego cortou as flores e as guardou em seu poncho. E alegre, tomou o caminho da casa do bispo.

“Autor anônimo, do século XVIII, representando o surgimento de rosas de Toledo

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