Os fenômenos que estuda a Parapsicologia requerem uma dupla divisão:

a) Fenômenos extra-normais (EN)
b) Fenômenos paranormais (PN)
c) Fenômenos supranormais (SN)

Fenômenos “extra-normais” (se é que se podem juntar estas duas palavras como já o fez o grande pioneiro Charles Richet), são fenômenos “misteriosos”, mas que, na realidade, não excedem o poder das faculdades e sentidos conhecidos pela ciência tradicional, embora em funcionamento extraordinário, ou manifestações extraordinárias, à primeira vista inexplicáveis.

Claro que sempre a primeira hipótese é o truque. Inumeráveis vezes desafiei o público…, e nunca pegaram os truques.

Fenômenos “paranormais” são aqueles que se devem a faculdade desconhecida pela ciência tradicional, e recentemente descoberta ou estudada pela Parapsicologia. Alguma coisa nova.

Por fim, a Parapsicologia estuda os fenômenos “supranormais”, possivelmente “sobrenaturais” ou “transcendentes”, até ver se tais fenômenos claramente superam toda possível explicação natural. Trata-se de fatos, observáveis, do nosso mundo. E precisamente os mais admiráveis. Tão supersticioso é o “cientista” que os nega sem prévio estudo rigoroso, como o “religioso” que por não compreende-los à primeira vista os atribui a Deus, deuses demônios, espíritos de mortos, exus ou orixás, potestades, larvas astrais, mahatmas etc., etc. E sobe esses fatos “apoiam” as suas doutrinas todas as religiões, seitas, superstições… (56,000). Como afirmou Robert Amadou a finalidade e suprema importância da Parapsicologia é estudar os fundamentos verdadeiros ou falsos de todas as religiões.

Numa segunda divisão mais ou menos bem delimitada e que se entrosa com a anterior, os fenômenos parapsicológicos podem ser:

a) De efeitos psíquicos (telepatia, precognição…).
b) De efeitos físicos (assombrações, levitações…).
c) De efeitos mistos ou psicofísicos (curandeirismo, feitiçaria, faquirismo…).

Neste tema “A PRODIGIOSA SABEDORIA INCONSCIENTE” só estudaremos os fenômenos de efeitos psíquicos, de conhecimento, tanto extra-normais como paranormais.
1ª SÉRIE

FENÔMENOS “EXTRA-NORMAIS” DE CONHECIMENTO
HIPERESTESIA DIRETA (HD)

ACUIDADE DOS NOSSOS SENTIDOS. É inegável que alguns radiestesistas, cartomantes, adivinhos, médiuns, etc. e mesmo pessoas comuns, às vezes obtêm êxito no conhecimento de “coisas ocultas”. Pomos de parte agora os truques, as casualidades, sugestões…; só tratamos das “adivinhações” autênticas.

Todos estes prodígios de “aparência paranormal” chegam, de fato, a ser paranormais, extrasensoriais, devidos a uma faculdade capaz de conhecer sem o auxílio dos sentidos?

INCONSCIENTE – Chamamos inconsciente a tudo aquilo que Freud chamava igualmente. Se não declaramos expressamente o contrário em algum caso particular, no conceito de inconsciente, incluirmos o pré-consciente, o subconsciente, o transconsciente, o supra-consciente, o inconsciente coletivo, profundo, etc. Portanto aquilo que não é consciente, em Parapsicologia chamamos inconsciente.

A PERCEPÇÃO HIPERESTÉSICA – Hiperestesia (de híper = sobre; aíszesis = sensação) significa exaltação da sensação. Hiperestésico é quem capta e pode manifestar estímulos mínimos.
As pessoas que manifestam com alguma freqüência este fenômenos e por extensão outros fenômenos extra-normais, são chamados “sensitivos”, reservando-se o nome de “metagnomos” para os que manifestam fenômenos paranormais. E com o termo “psíquico” designamos quem manifeste qualquer fenômeno parapsicológico, extra-normal ou paranormal (excluindo os fenômenos supra-normais, devidos unicamente a Deus).

A HIPERESTESIA ANIMAL – Se olharmos para certos animais ficaremos pasmados com a hiper-sensibilidade que podem ter seus sentidos fundamentalmente iguais aos nossos.
As borboletas machos da espécie “Arestias selene” são atraídas pela fêmea, na época do cio, até a 11 Km de distância.

Um cachorro de caça se guia por uma admirável hiperestesia do olfato sobre o mínimo cheiro de que fica impregnado o chão pisado há uma hora ou mais por lebre que passou por lá.

A hiperestesia de certos animais serve para alertar-nos e obrigar-nos a admitir a possibilidade da hiperestesia no homem, ao menos de uma hiperestesia inconsciente.

HIPERESTESIA EM SUJEITOS NORMAIS – De algum modo, todos somos hiperestésicos, isto é, todos somos capazes de captar com os sentidos estímulos mínimos. Às vezes estes estímulos são tão pequenos que o consciente não tem modo de reagir e cair na conta da percepção hiperestésica inconsciente. São sensações inconscientes.

O Dr. Hereward Carrington descreve uma experiência interessante a respeito de algumas sensações inconscientes (no caso, subconscientes).

Introduzida uma pessoa numa sala na qual nunca tenha estado, damos-lhe somente uns quatro ou cinco segundos para que observe tudo, o mais que puder. Após sair da sala, poderá dar conta de uns 10 ou 15 objetos. Mas se a hipnotizarmos em seguida para aproveitar as sensações que de fato teve e das quais não se deu conta conscientemente, observaremos que poderá enumerar, sob o efeito da hipnose que faz surgir certas sensações inconsciente, mais uns 40 ou 50 objetos que estavam na sala e dos quais só inconscientemente tivera conhecimento.

O descobrimento das sensações inconscientes não é coisa recente. Já em 1846, Gerdi avisava “que era necessário habituar-se a compreender que pode haver sensações sem percepção (consciente) da sensação”.

Muitos anos antes, o talento de Platão ensinava a mesma tese, embora com linguagem um pouco metafórica. Escreve, com efeito, o famoso filósofo grego no “Philon”: “Deves supor que dentre as impressões que recebe nosso corpo a todo instante, algumas se detêm no corpo antes de penetrar até o espírito, ao qual deixam indene (conscientemente), mas outras atravessam um e outro e produzem uma espécie de vibração, da qual uma parte é particular de cada um deles, e a outra comum aos dois”.

É, como se vê, a distinção entre percepção consciente, de um lado, e hiperestesia, de outro.
Outro tipo de sensações inconscientes (no caso, pré-conscientes) são aquelas que não percebemos por força da inibição e concentração, mas que poderíamos aprender em qualquer momento se assim o quiséssemos. Por exemplo, ao ler estas linhas só nos damos conta das idéias nelas expressas, mas ao mesmo tempo os nosso sentidos estavam sendo impressionados por barulhos que nos chegavam da rua, pelo contato do corpo na cadeira, na mesa e no chão, pela umidade ambiental, pelo ritmo da respiração e trajeto do ar pelas vias respiratórias, pelo frio ou pelo calor que nos circundam… Destas sensações o consciente pode dar-se conta se assim o desejamos.

Todas estas sensações, tão pequenas que o consciente não percebe habitualmente, são tipos do que chamamos hiperestesia.

Precisamente porque o consciente não capta, direta ou normalmente, tais sensações, é difícil determinar o número e qualidade delas. Existem, porém, e são, entre outras coisas, o fundamento da tão badalada “propaganda subliminar”. Havia muitos anos que os parapsicólogos das universidades de Moscou e Leningrado confirmaram a Visão Dermo-Optica (DOP), embora a “Microparapsicologia” da escola norte-americana ainda o desconheça…! Na fita cinematográfica por exemplo: grava-se num só fotograma e em segundo plano, suavemente, a palavra “sangue”. Num outro fotograma, e também pouco nítido, uma caveira. Quando a fita for projetada numa cena de horror, ninguém poderá dar-se conta nem da palavra “sangue” nem da caveira. A ínfima sensação, porém, pode ser captada inconscientemente e, surgindo à tona, a impressão tétrica do filme é, ou pode ser, acentuada.

Também o consciente pode chegar, pelo treino por exemplo, a graus fantásticos de hiperestesia. Os marinheiros chegam a enxergar objetos a distâncias muito superiores às que atingem pessoas dedicadas a outras profissões. Os pintores chegam a distinguir matizes nas cores completamente indiferenciáveis para o comum dos homens. Certos selvagens possuem, pelo exercício, um ouvido que supera a sensibilidade do mais sensível microfone, e um olfato que lembra o dos cachorros de caça. Os cegos e os surdos-mudos, freqüentemente apresentam algum sentido notavelmente hiperestésico, por serem obrigados a “atender” suas sensações, a fazer conscientes as sensações que noutras pessoas ficam inconscientes.

É o exercício que lhes permitiu a manifestação da hiperestesia. Se o podem manifestar, sinal é de que a capacidade estava aí; o homem possui uma grande capacidade de sensação. Isto é o que nos interessa destacar.

O PROBLEMA DA “VISÃO” DOS CEGOS DE NASCENÇA – Como em outros problemas, foram as experiências com animais as que orientaram os investigadores para encontrar a verdadeira solução da “visão” nos cegos.

Falaremos mais adiante do célebre cavalo Barto, um dos cavalos de Elberfeld, velho e cego. Não obstante sua cegueira, hoje é sabido que captava os movimentos aparentemente imperceptíveis dos assistentes.

Já há muito tempo que Rafael Dubois tratou longamente dos animais que “vêem sem olhos”. O grande naturalista Spalanzani chamava a atenção dos especialistas para que estudassem o escaravelho.

Dezenas de vezes Spalanzani repetiu a experiência de cortar a cabeça de um escaravelho, e não obstante, o escaravelho continuava a andar evitando os obstáculos. Estes fatos, evidentemente, devem ser ligados com o que acontece a alguns homens cegos, especialmente cegos de nascença.

Diderot afirma que há cegos que, entrando pela primeira vez numa casa desconhecida, se desviam dos móveis com tal precisão que dão a impressão de que vêem.

Ducamp conta maravilhado o que presenciou no Instituto de crianças cegas de Paris. Várias crianças cegas daquele Instituto brincam e correm em vários jogos ao ar livre sem se chocarem. Zabal interrogou os diretores do Instituto à procura de uma explicação, embora não obtivesse mais de que a confirmação do fato: são cegos absolutamente, não obstante evitam os obstáculos. Pessoalmente tenho referências de um cego que gosta de “ver” televisão, e de vários cegos de um Instituto especializado na Itália que costumam subir ao terraço para “verem” entrar os barcos na baía.

Experiências o observações semelhantes se repetem com relativa freqüência. Como explicar tudo isto? Falou-se do eco, como no caso dos morcegos, de radar…

A “micro-parapsicologia de laboratório” (a escola norte-americana) fala, mais uma vez erradamente, até de telepatia ou percepção extrasensorial…

Ora, que exista no homem uma emissão de sons para provocar o eco como os morcegos e, mais ainda, uma emissão de raios antropoflúxicos” para imitar o radar, são hipóteses bonitas, mas totalmente desprovidas de fundamento. Não se devem explicar fatos difíceis por hipóteses ainda mais difíceis.

E acudir à telepatia, ou qualquer outro fenômeno paranormal, é muito cômodo, mas o fenômeno paranormal só se deve admitir nos casos em que qualquer outra explicação normal ou extra-normal seja impossível ou muito pouco lógica. E se os fatos podem repetir-se com regularidade e precisão contínua em determinadas pessoas, como sucede nos fenômenos que estamos analisando, então o recurso ao paranormal deve ser excluído. Além do mais, por que dependeriam da distância? Por que não através das paredes se fosse faculdade extrasensorial? Coisas da micro-parapsicologia…

A explicação é a hiperestesia direta (HD). No caso do escaravelho, por exemplo, todos sabem que o escaravelho tem o centro motor e sensitivo no tórax, não na cabeça. O escaravelho pode, pois, perfeitamente, continuar a mover-se e a sentir sem cabeça, Os raios de luz solar refletem sobre os objetos e reincidem sobre o escaravelho, que, hiperestesicamente, com os nervos “a descoberto”, os sente. Não é visão ocular ou retiniana, pois está sem olhos. O animal sente o contato dos raios luminosos, ou o eco de suas próprias pisadas, calor, ondulação do ar provocada pelo movimento, ou ondulação do ar que choca com o objeto, etc…

O mesmo ou parecido devemos dizer do célebre cavalo Barto, cego. hiperestesicamente sentia as ondulações do ar, os reflexos de luz causados pelos movimentos dos assistentes, ouvia as palavras inconscientemente, tenuissimamente pronunciadas com o movimento das cordas vocais com lábios fechados, etc. Ao longo deste artigo ir-se-á compreendendo melhor a explicação.

A HIPERESTESIA EM CERTOS HISTÉRICOS – Em certas doenças psicossomáticas observa-se, como sintoma ordinário, algum tipo de hiperestesia patológica consciente, bem conhecida pelos médicos e psiquiatras. (Frisamos que é consciente, porque a hiperestesia inconsciente a consideremos comum a todos os homens, em maior ou menor grau).

Nos histéricos, por exemplo, pode-se dar, entre outros distúrbios do ouvido, certa hiperacusia (hiperestesia auditiva), geralmente unilateral, de modo que ouvem pequenos ruídos a grandes distâncias; ou grande intolerância para certos odores ou sabores (hiperestesia olfativa e gustativa), de modo que pode bastar uma só gota de alguma substância misturada na sopa para torná-la intolerável. Hiperestesia visual pode ser observada em muitos neurópatas, vendo pequenos objetos distantes como se usassem binóculos. Hiperalgesia (hiperestesia à dor ou hiperestesia tátil), de modo que um pequeno estímulo cause forte dor, é freqüente nos neurastênicos, como também nos histéricos, geralmente muito localizada, dificilmente geral.

É hiperestesia que facilmente se manifesta no breve tempo de uma crise. Se em tão pouco tempo pode manifestar-se no consciente, é sinal de que a faculdade aí está. Inconscientemente pode ser de atuação mais freqüente.

Uma das experiências preferidas por Charcot, fundador, como se sabe, da escola de hipnotismo de Salpetrière, era a seguinte:

Escolhia entre os doentes do hospital alguns histéricos. Primeiramente, punha-os em estado hipnótico de sonambulismo, e neste estado lhes mostrava um papel em branco sugerindo-lhes que lá havia uma fotografia. Feito isso, misturava o papel com uma dúzia de outros papéis também todos em branco e perfeitamente iguais. Escolhia de propósito papéis nos quais à primeira vista fosse impossível descobrir alguma marca que os diferenciasse.

Antes de acordar os pacientes sugeria-lhes que uma vez acordados continuariam a ver o retrato no papel. E os acordava. Apresentavam-se então todos os papéis a cada paciente. Este ia passando-os sem saber para que , só porque lhe mandavam. De repente, e precisamente ao chegar ao papel em que deveria estar o imaginário retrato sugerido, o paciente se detinha com surpresa por ver que um dos papéis era uma fotografia. Pelo lugar que tinha sido colocado o papel em questão, Charcot comprovava o êxito da experiência.

Disso deve deduzir-se que houve hiperestesia, como bem analisa Binet. Apesar de os papéis parecerem inteiramente iguais, na realidade não o podiam ser.

O paciente tinha percebido por hiperestesia algum sinal característico e assim diferenciava o papel. Note-se que os experimentadores que soubessem o lugar que ocupava o papel em questão, na maioria das experiências estavam ausentes para não guiar eles mesmos com gestos involuntários a pessoa histérica.

Contra a ligeireza da micro-parapsicologia…, que se tratava de hiperestesia e não de telepatia ou algum outro fenômeno extra-sensorial, paranormal, pode-se confirmar, como o fez o Dr. Bernheim, da escola de hipnotismo de Nancy, utilizando sujeitos menos sensíveis:
Bernheim repetiu a experiência de Charcot em vários sujeitos. Entre eles, por exemplo, uma empregada doméstica de dezoito a vinte anos, convalescente no Hospital. Acordada da hipnose reconheceu imediatamente o papel em questão, vendo seu retrato. Um exame minucioso do papel mostrou a presença de alguns sinais ou defeitos, muito pequenos, que poderiam ter servido de orientação.

Para comprovar esta suspeita, Bernheim resolveu fazer sinais semelhantes nos outros papéis. Não obstante, a sonâmbula continuou a distinguir “seu” papel. Bernheim mandou fazer então, exatamente, conscienciosamente, idênticos sinais em todos os papéis. Desta vez a sonâmbula desorientou-se repetidas vezes.

Ainda Bernheim fez outro tipo de experiência que nos interessa aqui:
“Um dos meus sonâmbulos imitava os meus movimentos sem os ver, quando me colocava atrás dele para executá-los. Quando eu fazia movimentos de rotação com os braços, punha-se também algum tempo depois a agitá-los, embora sem conseguir imitação perfeita do movimento que eu executava (…) Em breve convencemo-nos de que o sonâmbulo ouvia o barulho dos nossos braços e dos nossos pés e que a idéia do movimento a ser executado era-lhe transmitida ao cérebro pelo ouvido, pois bastava o movimento sem qualquer ruído, isto é, sem tocar a roupa, para que ele ficasse imóvel”.

Bernheim, analisando profundamente as experiências que realizou, chegou à conclusão de que não havia exaltação propriamente dita, aumento da acuidade dos sentidos, mas apenas da atenção, concentrando-a num ponto determinado. Evidente. Não é aumento da hiperestesia mas só manifestação, no consciente, da hiperestesia de que estes indivíduos eram capazes (na medida em que pode se falar de consciente nos indivíduos hipnotizados).

De fato a inibição com respeito ao que se passa ao redor, ajuda à percepção (consciente) de sinais mínimos. Mas as experiências de Bernheim devem ser completadas. Em primeiro lugar a concentração explicaria os êxitos dos sujeitos em questão e de outros não muito bons sensitivos. Mas daí não se pode deduzir que melhores sensitivos não poderiam acertar onde fracassaram os sujeitos experimentados por Bernheim. Temos outras muitas experiências e casos expontâneos, com iremos vendo, que mostram que a hiperestesia não tem limites tão estreitos.

Por outra parte a inibição consciente não afete a hiperestesia inconsciente: veremos, com efeito, que inclusive quando o consciente atende fortemente a outra coisa, o inconsciente capta mínimos estímulos: é realmente hiperestésico até limites insuspeitos.

Numa palavra, a concentração (e inibição conseqüente), fariam com que o consciente perceba mais, não se referindo ao inconsciente, que sempre seria hiperestésico.

HIPERESTESIA NA HIPNOSE – Note-se que nas experiências que acabamos de citar, embora no começo se usasse o hipnotismo para dar as sugestões, o reconhecimento do papel se fazia estando acordado o paciente. Por conseguinte, mesmo no estado de vigília, existe ou pode existir manifestação de uma hiperestesia assombrosa no homem.

Com hipnotizados especialmente sensitivos, é mais fácil experimentar a que graus de hiperestesia pode chegar o homem em certas circunstâncias. Com efeito, a manifestação da acuidade dos sentidos chega a limites insuspeitas.

Não só com os olhos semifechados mas inclusive com os olhos completamente cerrados, alguns hipnotizados sentem os raios luminosos com tal nitidez, que conseguem ver (visão autêntica) até objetos sumamente distantes, impossíveis de serem percebidos (conscientemente) por outra qualquer pessoa, em estado normal e com os olhos abertos.

A Academia de Ciências de Paris nomeou uma Comissão para o estudo de alguns fenômenos do então nascente “magnetismo” ou hipnotismo. A Comissão, científica e séria, após cinco anos de estudos, concluía na proposição 24:
“Vimos dois sonâmbulos distinguir, de olhos fechados, objetos colocados diante deles, designar a cor e o valor de cartas de baralho sem mexer nelas, ler palavras escritas à mão ou algumas linhas de livros que lhes eram abertos ao acaso. E estes fenômenos se davam mesmo quando, com os dedos, se lhes fechavam rigorosamente as pálpebras”.

A Academia rejeitou aprioristicamente todas as conclusões da Comissão. Surpreendida pelo que lhe parecia impossível, apesar de não tê-lo observado, recusou-se a publicar as conclusões de cinco anos de sério e científico trabalho da Comissão. Nem sequer quis discuti-las, motivo porque permaneceram como autógrafos. Hoje, porém, devem ser incorporadas à ciência.

Já Braid, para citar um exemplo dos pioneiros da hipnose, relata o caso de um paciente que não possuía bom ouvido, mas, sugestionado, percebia o que se dizia em cochichos, estando de costas e a mais de cinco metros de distância. Quem normalmente não ouvia o tique-taque de um relógio senão à distância máxima de um metro, ouvia-o nitidamente, em hipnose, a dez metros de distância.

O Dr. Bremant observou um hipnotizado em estado de sonambulismo que, do gabinete médico, seguia perfeitamente, através dos vidros da janela, um diálogo mantido em voz baixa do outro extremo da rua.

Certos hipnotizados queixam-se quando uma agulha é aproximada a uns 20 cm deles.
Por isso, acreditaram alguns investigadores que a sensibilidade saía do corpo formando uma capa ao redor. Assim, por exemplo, o Dr. Boirac, que repetiu com algumas modificações experiências anteriores do Cel. De Rochas. Na realidade, nada há que prove essa exteriorização da sensibilidade. Não suspeitaram aqueles cientistas, que, com só movimentar uma agulha e aproximá-la a dez ou vinte centímetros do corpo, o hipnotizado fosse capaz de notá-lo no próprio corpo pela ondulação do ar, pelo barulho imperceptível do movimento… Outros, segundo Braid, chegavam a mais, pois sentiam o movimento da mão a quinze metros de distância.

Insistimos: se na hipnose pela força da sugestão é possível manifestar tanta hiperestesia, é sinal de que a hiperestesia aí está, sinal de que os nossos sentidos, ao menos inconscientemente, são sumamente agudos.

Mais do que sensibilidade, a hiperestesia parece, às vezes, uma exacerbação alérgica, exagerada, da sensibilidade. Não só se percebe, mas “se aumenta”, parece, a influência do objeto. É como se todo o corpo estivesse em carne viva e muito excitável; não pode ser tocado, nem com suavidade, sem dor. Em definitivo, isto mostra-nos como as terminações nervosas são sensíveis e excitáveis ao máximo por estímulos mínimos, e como inconscientemente podemos “exagerar”, como caixas de ressonância, os estímulos.

O Dr. Azam colocava a mão à distância de quarenta centímetros do dorso descoberto duma hipnotizada. Esta não só sentia o calor da mão mas até se curvava para diante, queixando-se de grande calor. O contrário sucedia por causa do frio quando um pedaço de gelo era posto à boa distância: o pouco frio que podia chegar até ela impressionava-a tanto que tremia todo o corpo e mostrava a clássica reação “carne de galinha” (pela hanseniana).

Seria interessante poder delimitar até onde chega ou pode chegar a hiperestesia do homem; isto, no entanto, parece-nos impossível. Acreditamos que os sentidos podem ser impressionados, ao menos inconscientemente, pelos menores estímulos.

A bússola é um delicado instrumento. Pois bem: o corpo humano sente também o magnetismo terrestre, ao menos inconscientemente. Sensitivos até conscientemente podem sentir a influência magnética.

Os sensitivos observados por Reichenbach reagiam violentamente em presença de imãs, tanto mais violentamente quanto mais potente fosse o imã. Não podiam dormir senão no sentido do meridiano magnético, cabeça ao Norte. Noutra posição experimentavam uma sensação de inquietação e mal-estar físico.

Aliás, os Drs. Friedman e Bachman, dos EUA, após uma série de observações e experiências, qualificaram a certos sensitivos como sendo “bússolas humanas”. Numerosas observações realizadas com os primitivos de Austrália Central confirmaram o fato, segundo depoimentos apresentados no Congresso Internacional de Biomagnetismo.

Muitos dos tipos de experiências anteriores descritas e outras semelhantes podem ver-se nos bons tratados de hipnotismo como coisa relativamente freqüente. O Pe. Frederichs, professor e pesquisador do CLAP, visita o hospital onde a doente, absolutamente cega, “lê” pelas pontas
dos dedos das mãos e dos pés, e até pelos cotovelos…

A CHAMADA VISÃO PARA-ÓTICA – Os conhecimentos obtidos por hiperestesia podem ser tão nítidos, que alguns autores chamaram a este fenômeno “visão para-ótica, hiperótica ou cutânea”.
Paul Jagot encontrou (melhor dito, encontraram seus discípulos e o levaram ao mestre) um sujeito que, hipnotizado, lia perfeitamente as horas num relógio sobre a sua cabeça. Não se tratava de sinais inconscientemente dados pelos investigadores, pois estes trocavam os ponteiros do relógio por trás do sonâmbulo, e só o observavam depois do sonâmbulo ter dito a hora marcada.

O professor Cesar Lombroso encontrou uma histérica que, em ataques sonambúlicos de hipnotismo espontâneo, perdia completamente a visão pelos olhos, vendo entretanto quase com o mesmo grau de acuidade pelo lóbulo da orelha esquerda. Não só distinguia as cores, senão também os caracteres duma carta chegada havia pouco.

Mas ainda, se o experimentador concentrasse, com uma lente, alguns raios de luz sobre o lóbulo da orelha esquerda, ressentia-se ela vivamente e gritava, sacudia e cobria com o braço a orelha como faria com os olhos se estes fossem feridos com uma luz intensa demais.

Igual transposição dava-se com o olfato. A amônia e a assa-fétida aplicadas ao nariz não davam reação alguma. Aplicadas ao queixo faziam espirrar e obrigavam à doente a afastar a cabeça em sinal de náusea e desagrado.
Foi famosa a menina Giselle Court. Os esposos Duport, camponeses da Gironda, retiraram-na da assistência pública quando ainda tinha três anos. Após uma perturbação nervosa, a pequena ficara cega. Pouco a pouco, com o exercício e a vontade de vencer, foi hiperestesiando as extremidades dos dedos até conseguir distinguir as cores com só aproximar e deter os dedos sobre elas.

VISÃO PARA-ÓTICA EM VIGÍLIA -Mesmo em pessoas em estado normal, realizam-se estes fenômenos de aparente transposição de sentidos. Expressando-nos com mais perfeição: possivelmente estes fenômenos chamados de transposição de sentidos (na realidade hiperestesia) dão-se em todas as pessoas, ao menos inconscientemente. Há, porém, algumas pessoas nas quais o captado inconsciente, aflora ao consciente. São os chamados “sensitivos”, como já dissemos.

Os sensitivos, porém, podem ser pessoas comuns, normais, perfeitamente integradas na sociedade, embora sejam mais freqüentes os sensitivos entre os mais ou menos anormais. (É importantíssimo que dediquemos outros artigos a mostrar que essa aparente normalidade é só com referência ao aspecto pejorativo da palavra anormal. Porque noutros aspectos sempre será possível encontrar nos sensitivos “normais” alguma falha ou lesão orgânica, algum desequilíbrio psíquico… Às vezes pode bastar uma excessiva emotividade, cansaço habitual, etc. É certo que fomentar e pretender desenvolver a “sensibilidade” (a hiperestesia ou qualquer fenômenos extra-normal, como também paranormal) é muito perigoso. Ser psíquico não é uma qualidade mas um defeito. Tanto mais notável defeito quanto mais freqüentes sejam os fenômenos manifestados).

O cronista científico Jean Labadie, por exemplo, descreve dois casos extraordinários e muito bem comprovados por ele mesmo, da chamada “transposição de sentidos” ou “visão para-ótica” (um tipo de hiperestesia), em pessoas normais.

O primeiro sujeito observado era uma senhora da alta sociedade de Paris. Além de Jean Labadie, mais seis pessoas fiscalizaram a experiência.

Colocaram uma primeira faixa horizontal de tafetá sobre as fendas das pálpebras fechadas e sobrepuseram a seguir uma faixa vertical. Uma terceira, muito larga, foi posta ainda sobre ambas e uma grande porção de algodão em rama aplicada depois a toda a superfície dos globos oculares. Finalmente, uma venda preta e opaca completou a rigorosa obturação.

Não obstante, a senhora identificou, após alguns momentos de observação, tudo aquilo que lhe foi apresentado: desenhos, letras, algarismos, objetos…

Numa outra série de experiências, para evitar-se ainda mais a hipótese duma fraude inconsciente ou irresponsável (tão difícil de evitar nos psíquicos, em transe ou estado alterado do consciência), recorreu-se a um controle geométrico:

De uma caixa em forma de paralelepípedo retangular, tirou-se a metade duma das paredes. O que ficou formou, pois, uma espécie de palco de teatro em pequeno tamanho com o pano descido até o meio. Colocou-se então no fundo da caixa uma carta de baralho e inverteu-se o aparelho, a fim de que, apresentado à senhora, fosse a fronte, e não os olhos, a que pudesse “ver”. Após uns segundos de exame a senhora identifica a carta. E assim uma e outra vez… Dir-se-ia que enxergava pela fronte.

Como resultado da publicação destas experiências, os investigadores receberam um dia uma carta postada em Nay (Baixos Pirineus). O senhor Raymont Simonin informava que três sobrinhas suas, de 11, 13 e 14 anos, apresentavam o mesmo fenômeno com uma regularidade pasmosa. Juntamente com a carta vinha um atestado científico publicado num jornal pelo Dr. Soun, professor de Física no Liceu de Bordeaux.

Não obstante ter realizado o Dr. Soun severamente as comprovações, Jean Labadie trasladou-se ao local para comprovar o fenômeno por si mesmo. Fez-se acompanhar por um operador cinematográfico para filmar toda a prova e assim poder depois analisar, comprovar, evitar possíveis auto-sugestões…

Repetiram-se muitas vezes as experiências. Não cabia dúvida da realidade do fenômeno.

DOP – Numerosas e muito rigorosas experiências sobre a “visão para-ótica” estão sendo realizadas sob a direção do Dr. Gregory Razran no Instituto de Neurologia de Moscou, especialmente com a sensitiva Rosa Kuleshova, e sob a direção do Dr. Richard P. Youtz no Bernard College de New York, especialmente coma sensitiva Patrícia Stanley.

Os especialistas norte-americanos (na escola norte-americana, na micro-parapsicologia, nada é estranho: sabem muito pouco e o pouco que sabem muitas vezes é errado), na sua maioria, consideram “nova” esta antiga descoberta e inventaram um novo nome: “dermo-optical perception” (DOP).

Certa novidade nestas experiências talvez seja unicamente constatar que se podem captar inclusive os raios infravermelhos. A importância da captação de raios lumínicos sobre outros possíveis estímulos (calor…) foi comprovada com filtros, superposição de papéis transparentes amarelos e azuis com os quais se capta cor verde como na visão retiniana.

Mas isto também não é novidade meramente: em Rússia, o Dr. Chowrin, em 1894, comprovara o influxo das cores complementares, nas experiências que estudaremos no artigo Nº 4 desta série.
A visão “dermo-ótica” observada em alguns sensitivos é tão perfeita e a tanta distância como a visão retiniana. Os investigadores russos calculam que há no homem 10 “foto-receptores” para cada 6 centímetros quadrados de pele. Sem precisar a porcentagem, já em 1920 Farigoule afirmava que tínhamos “olhinhos” por todo o corpo.

A captação não retiniana dos raios lumínicos é, pois, um tipo importante, mas não único, da hiperestesia humana. Pététin, Boirac, etc. destacam casos de leitura pelo estômago. A hiperestesia é especialmente freqüente nesta região do corpo.

Pététin deslizava uma a uma cartas de baralho escondidas na palma da mão por debaixo das cobertas da cama onde repousava uma doente. A senhora podia ler pelo epigástrio as cartas. Só após a “leitura” feita pela senhora, a carta em questão era mostrada às testemunhas.

E a propósito deste caso de leitura pelo epigástrio, permita-se-me uma digressão. A importância do epigástrio deve ser destacada em Parapsicologia. Tanto que já chamou, em épocas passadas, a atenção dos filósofos, mais do que outros tipos de hiperestesia. Kant e Hegel, por exemplo, falam da “leitura pelo estômago”. Tem-se constatado freqüentemente a existência de lesões ou traumatismos medulares, antigos ou recentes nos psíquicos o que pode ser significativo se levarmos em conta a especial relação epigástrio-medula espinhal. Os “magnetizadores” deram especial importância a esta região. Alguns místicos sentiram enorme calor no epigástrio durante ou após os êxtases. Os hindus em geral, e os iogues em particular, consideram de capital importância o plexo solar” (“chakra umbilical” ou “manipura chakra”) como sede do (“prana” = uma energia quase divina que haveria pelo ar!!), i. é, da vitalidade ou faculdades normais, extra-normais ou paranormais, usando nossa nomenclatura. Os pseudo possessos (pois não existe incorporação) do espiritismo, do candomblé, da demonologia…, freqüentemente afirmam que sentem o “intruso” na boca do estômago. E os que se crêem vítimas de feitiço, freqüentemente acrescentam que sentem um “embrulho” no estômago. Por isso, tornou-se clássico que as pessoas que pretendiam fazer um pacto com os demônios, ou com os “espíritos”, ou… engolissem o papel do “contrato”. As faculdades parapsicológicas, que então ele confundiam com dons místicos, “têm sua sede no epigástrio e no plexo solar” chegou a concluir em 1837 Görres, respeitadíssimo especialista em Mística.

OUTROS TIPOS DE HIPERESTESIA – O que sucede com o sentido da visão (voltando ao tema), sucede com os outros sentidos, constituindo o para-ouvido, o para-olfato…

Pététin, por exemplo, descreve uma sonâmbula hipnótica que reconhecia pelas pontas dos dedos o sabor de várias substâncias: biscoitos, carneiro assado, carne de vaca cozida, pão de leite… Estudou e descreve casos de pessoas que não ouviam pelo ouvido, mas faziam-no quando se lhes sussurravam palavras nas pontas dos dedos ou no epigástrio.

Mas basta o que dissemos a respeito da visão, não precisamos nos deter na hiperestesia de outros sentidos.

Os fenômenos da hiperestesia durante o sonambulismo hipnótico poder-nos-iam explicar certos casos de sonambulismo durante o sono natural. Regra geral, quando um sonâmbulo caminha com os olhos fechados por lugares conhecidos, é porque a memória guarda com todo o detalhe as distâncias, obstáculos, etc. Mas em certos casos, os sonâmbulos caminham com os olhos fechados por lugares desconhecidos e obscuros ou por lugares conhecidos mas evitando obstáculos novos. A explicação nestes casos não pode ser a memória, mas a hiperestesia da escassíssima reflexão luminosa, do reflexo sonoro, da reflexão do ar…

Muitos conhecimentos “extraordinários”, “inspirações”, “pressentimentos”, etc., tem origem na hiperestesia.

UMA ESPERANÇA PARA OS CEGOS – Em Bangkok (Tailândia) uma equipe de cientistas sob a direção do Dr. Rhum Vichit Sukhakarn está tratando de controlar a visão para-ótica para que os privados da vista possam ver. Trata-se na realidade de aproveitar a hiperestesia.

O único avanço poderia ser o intento de sistematizar o exercício. O hipnotismo aumenta a concentração e a confiança, a fim de conseguir mais rapidamente a interpretação consciente da hiperestesia.

As experiências começaram quando um viajante expôs a um médico de Bangkok as teorias sobre a hiperestesia que ouvira de um velho monge budista tailandês.
Em Bangkok procuram que se manifeste a DOP nas maçãs do rosto, com o que se dará a impressão de que de fato os cegos “vêem”, porque voltam a cabeça para o objeto.
Mas, por enquanto, por própria confissão do Dr. Sukhakarn, “nossas experiências só conseguiram êxito com sujeitos muito jovens e aptos para a hipnose”.

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