Um Retrato No Poncho

Quando Juan Diego chegou, já por terceira vez, ao Bispado, os empregados não quiseram incomodar o prelado. Fizeram Juan Diego esperar bastante tempo, confiando em que ele próprio desistiria. Mas acabaram querendo saber o que ele trazia com tanto cuidado, no seu poncho. Quando viram as rosas ficaram surpresos, porque não era tempo de floração de rosas, e elas estavam frescas e belas. Eram rosas grandes, bonitas, de indescriptível aroma. Avisaram então ao bispo.

Ao cair às rosas, instantaneamente foi impressa por milagre a imagem de Na. Sra. de Guadalupe

Quando Dom Juan de Zumárraga enfim o recebeu, Juan Diego abriu a dobra do seu poncho, e caíram magníficas e abundantes rosas de Toledo (na Espanha, também chamadas impropriamente rosas de Castela, as de maior tamanho e mais aromáticas do mundo).

E… mais uma “assinatura” divina. E que “assinatura”! Pouco depois de “as flores caírem no chão, de repente apareceu milagrosamente impressa no poncho a bela Imagem da Mãe de Deus, da mesma forma como está e é guardada no seu templo de Tepeyac, e que tem o nome de Guadalupe (…) Assim que viram a Imagem, o senhor bispo e todos os que ali se encontravam caíram de joelhos e a admiraram”. “O bispo rezou e (…) quando se levantou, desamarrou a túnica de Juan Diego que estava presa ao pescoço, onde se desenhara e aparecera a Senhora do Céu. Em seguida, levou-a e colocou-a em seu oratório”.

Todas as informações históricas a respeito da visita de Juan Diego ao bispo relatam que a impressão da Imagem apareceu no poncho, ali, á vista de todos os presentes, depois de as rosas terem caído.

Hoje sabemos o momento exato. Num estudo moderno realizado pelo Pe. Mario Rojas Sánchez, Dr. Juan Homero Hernández Illescas, Dr. J. Canto Ylla e Dr. Armando García de Leon, no Instituto de Astronomia da Universidade Nacional do México, comprovaram que a posição das 46 estrelas no manto de Nossa Senhora de Guadalupe correspondente à situação em que estavam, vistas de fora da abóbada celeste, sobre toda a América, do Alasca até a Patagônia, no solstício de inverno do ano de 1531, 12 de dezembro, às 10 horas e 36 minutos.

Nossa Senhora concedeu Seu lado direito aos hispanos do hemisfério Norte. Do lado esquerdo estão as nações do hemisfério Sul… E sobre o coração, as estrelas correspondentes ao Brasil!

Estão O bispo trasladou a Imagem para a igreja, e assim todos puderam Vê-la.
“Muito se admiravam com o fato de que tivesse aparecido por milagre divino, porque pessoa alguma neste mundo pintou sua bela Imagem”.
Juan Diego foi hospedado na casa do bispado até o dia seguinte, quando o felizardo índio foi mostrar o lugar onde deveria ser erguido o templo.
E logo depois voltou para sua casa, ansioso por ver o tio que deixara gravemente enfermo. Juan Bernardino explicou que ele também vira a Jovem Rainha e que lhe dissera Seu nome: Santa Maria Tequatlaxopeuh.

Ao ser “revitalizado”, Juan Bernardino também teve a visão da menina de Guadalupe


O Nome “Guadalupe”

O vocábulo “Guadalupe” é árabe. Significa “encontrada no rio”. Como então, numa terra de idioma tão diferente, o náhuatl, foi chamada Guadalupe aquela Jovem Rainha que teria dito que seu nome era Santa Maria Tequatlaxopeuh?

Era dificílimo para os conquistadores e missionários espanhóis o vocábulo “Tequatlaxopeuh”, que significa “aquela que afugentou os que vos matavam”.

O vocabulário foi associado pelos espanhóis a “de Guadalupe”, nome que eles conheciam. Há na Espanha, em Cáceres, uma esplêndida basílica onde se cultua Nossa Senhora de Guadalupe, uma Imagem de madeira encontrada nas areias do rio entre os anos 1312 e 1350, quando aquela região espanhola estava sob o poder dos mouros. E assim passaram a chamar a Imagem da Jovem rainha. Assim também a identificou o autor do Nican mopohua que, mesmo escrevendo em língua náhuatl, usou o nome usado pelos espanhóis.

Aos astecas era compensador chamar sua nova Rainha como “aquela que afugentou os que nos matavam”, alusão ao sangue de seus antepassados oferecido aos “deuses” que aparecem na Imagem. Especialmente ao “deus” Quelzalcoatl, representado pela lua ou por uma serpente emplumada.]

Nos degraus da pirâmide erigida pelos astecas, escorriam riachos de sangue de crianças sacrificadas ao deus sol

A Senhora de Guadalupe esmaga a lua com o pé, além de que a Imaculada é freqüentemente representada pisando a serpente, símbolo do mal. É significativo que a primeira visão tenha se dado no dia 9 de dezembro de 1531. Naquele ano, a festa da Imaculada celebrou-se precisamente nessa data. Era a passagem de épocas violentas ao convívio tranqüilo de quem se oferecia: “Não estou Eu aqui que sou tua Mãe?”.

A Grande Evangelizadora

As cores do manto e da túnica são as cores da rainha dos astecas. E não é só, os especialistas israelitas foram unânimes em sua observação da forma e do modo de o manto ser posto sobre a cabeça: “tanto o manto como a túnica que a Imagem apresenta coincidem com as vestimentas utilizadas, durante as festas, pelas mulheres de Israel do século I”.

Sem entrar em detalhes, por ser tema muito difícil para os não-familiarizados com a mentalidade e expressões dos astecas daquela época, aludirei a que estudos recentes, principalmente da equipe do Pe. Mario Rojas Sánchez, demonstram que a Imagem toda e a história toda está cheia de simbolismo para os astecas. Constituiu um Catecismo amplo e muito claro para eles, então com muitíssima dificuldade idiomática e conceptual com os catequistas espanhóis. Era muito esclarecedores para os índios o significado do próprio nome Tequatlaxopeuh, as grafias do Tepeyac, a correspondência de lugares geográficos, o significado nos hieróglifos astecas das datas das visões… Igualmente em relação à mitologia asteca era muito significativo que a cor rosada da aurora matinal do Vale do México se representasse na túnica; o azul do céu, no manto; as estrelas, no manto de seda sobreposto; o resplendor amarelo do sol, precisamente detrás Dela; a lua, precisamente sob os pés. Os “deuses” mais importantes deles, agora a serviço da Rainha dos “deuses” e rainha dos índios como expressavam as cores das roupas Dela. Tinham muito sentido hieroglífico os desenhos ou arabescos sobre toda a túnica, aliás representando toda a orografia mexicana; o hieróglifo de Vênus, o hieróglifo “nahui ollin” de especial significado em toda a religião asteca; enfim, a interpretação hieroglífica de todos os detalhes.

Os índios entenderam a catequese expressa na Imagem surgida milagrosamente… Facilitando sua conversão em massa ao catolicismo.

Mais uma Revitalização

No dia 26 de dezembro, catorze dias depois do milagre das rosas e da impressão da Imagem, o bispo organizara uma solene procissão para levar o poncho com a Imagem de Santa Maria de Guadalupe à ermida provisória no monte Tepeyac. O bispo nomeou Juan Diego encarregado da ermida e da Sagrada Imagem.
Da solene procissão do traslado participaram o povo e os nobres astecas, o bispo com os demais religiosos franciscanos, e os soldados espanhóis com o próprio Hernán Cortés, vice-rei.

A multidão caminhou sobre uma calçada adornada. “um tapete de folhagens e flores”. De ambos os lados, estava o lago, onde alguns índios em canoas faziam batalhas simuladas, características das festas e costumes dos chichimecas, os astecas que usavam o arco e a flecha.

Durante a “batalha”, quando um dos participantes esticou seu arco, acidentalmente soltou a flecha, que atravessou o pescoço de outro “guerreiro”. Nada puderam fazer os médicos espanhóis. A flecha atravessara a jugular e a traquéia…

Acabou a festa! Puseram o cadáver sobre o andor da Senhora de Guadalupe… E repentinamente a flecha pulou, o morto levantou-se sadio e forte como era antes. Só ficou uma marca rosada, como testemunho do milagre durante toda sua vida.

Na pintura grande se representa, como em teatro, o agradecimento pelo milagre da revitalização do índio. No quadro incluído acima está representada a procissão rumo à ermida, o simulacro de batalha dos índios e, no meio na parte de embaixo, o mortal acidente. Óleo sobre tela, no Museu da Basílica.

A procissão e a revitalização do indígena são também conhecidos através de uma pintura de grandes proporções que hoje pertence à coleção do Museu da Basílica de Guadalupe. Apesar de sua data tardia, 1653, e de seu estilo europeu, ela fornece uma série de confirmações históricas.

Em outro documento, denominado “informações de 1666”, vários índios testemunharam o que lhes foi contado por seus avós e antepassados sobre a procissão e o milagre, constituindo um núcleo comum de muitas fontes.

Da Ermida às Basílicas

A “ermida dos índios” na realidade foi levantada em onze dias por índios e espanhóis; e inclusive os próprios Dom Juan de Zumárraga e Hernán Cortés “arregaçaram as mangas”. A ermida, com a milagrosa “Imagem” impressa no poncho, foi conservada até 1622, quando foi demolida e sobre ela se construiu uma linda Igreja Paroquial.

A Paróquia dos Índios, erigida onde estava à antiga ermida dos Índios, e por isso a atual Paróquia conserva aquele título.

Sucessivamente foram se construindo mais oito prédios maiores: a Igreja de “El Pozito”, Convento dos Franciscanos, Basílica de Guadalupe… A mais tradicional foi concluída em 1709 e guardou a Imagem de Nossa Senhora de Guadalupe até 1976.

A antiga Basílica, cuja entrada hoje está muito restringida. Observe-se a inclinação em relação ao Convento Franciscano e em relação à parte de atrás

Como esta basílica ficou inclinada, ameaçando cair, por ter sido construída sobre árvores fincadas no lago Texcoco, foi substituída, a partir de 1º de outubro de 1976, por uma imensa basílica em forma de sombrero mexicano.

A atual Basílica, em forma de sombrero mexicano

A técnica moderna promete reerguer a antiga basílica, que será convertida em museu guadalupano. Na entrada da nova basílica está escrito: “No estoy Yo aqui que soy tu Madre?”

Numa das já nove peregrinações das que foi diretor espiritual, o Pe. Quevedo explica a um grupo de brasileiros a história do “Não estou Eu aqui que sou tua Mãe?” impressa no frontispício da Basílica de Guadalupe

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