SIMPLES E SIMPLISTA

Na introdução ao seu primeiro livro, “O Livro dos Espíritas”, Allan Kardec escrevia:

“Aplaudiríamos a nós mesmos por ter sido escolhidos para realizar uma obra da qual não pretendemos, de resto, nos fazer nenhum mérito pessoal, uma vez que os princípios que ela encerra não são nossa criação; portanto, seu mérito é inteiramente dos espíritos que a ditaram (…) Na França como na América (…) as inteligências que se manifestam declararam ser espíritos”.

As pessoas simples usam muito esse falso argumento: “Sonhei com um desastre…, foi meu pai falecido que me comunicou”, “escrevi uma mensagem…, meu marido morto assinou” etc. Todos os livros e mensagens de Chico Xavier e de milhares de médiuns espíritas pelo Brasil e pelo mundo são simplesmente atribuídos a espíritos de mortos sem verificação: “foi ditado”, “foi assinado”… Ponto, isso basta para Kardec!! Isso basta para milhões de espíritas!!

A mais elementar regra de prudência aconselha -impõe com tanto maior obrigação quanto mais o problema for importante- que nos certifiquemos de quem é a pessoa que nos procura, quais suas qualidades, qual sua honestidade.

Só um louco da confiança a um desconhecido num negócio do qual dependesse sua vida profissional e econômica, a de toda a família, e a de muitas outras…

E assim mesmo, quantas vezes, mesmo pessoas inteligentes e prudentes se enganam… Todas as garantias exigidas pelos governos, pelos tribunais, pelos bancos…, muitas vezes demonstraram-se insuficientes.

Se assim é com pessoas que vemos, que tocamos, que analisamos… nos negócios bem tangíveis da vida; quanto mais deveria ser em relação aos espíritos, conforme esse “argumento” espírita?

Em tema tão transcendental, haveremos de aceitar a doutrina espírita simplesmente porque os se-dizentes espíritos dos mortos afirmam intervir nas sessões de espiritismo, e com essa doutrina, na intenção kardecista, substituir (!) e aperfeiçoar (!) a Revelação do Pai (por Moisés e os Profetas), do Filho (por Jesus Cristo e os Apóstolos) e do Espírito Santo (no dia de Pentecostes)? Simplesmente porque Kardec e os mestres do espiritismo e os médiuns afirmam que são os próprios espíritos que afirmam ser espíritos de mortos? Pode haver maior loucura?

Incorporando o espírito de um animal?”Ele próprio o afirma”

ASSIM, TUDO VALE

Dando valor a tal “argumento”, os espíritas caem continuamente em contradição, embora eles mesmos no fanatismo ou lavagem cerebral sofrida, nem o percebam:

Na “Revue Spirite”, sob a direção de Allan Kardec, publicou-se a “História de Joana D´Arc ditada por ela mesma”. Pouco depois aparece uma “Dissertação moral ditada por S. Luís”, Rei de França.

E logo vão aparecendo mensagens assinadas por habitantes de Marte, Mercúrio e mormente de Júpiter. Seriam espíritos de ex-habitantes da Terra que reencarnaram (?) nesses planetas! Foi dito e assinado por eles!

Mas Allan Kardec não explica como é que esses extraterrestres, que nem sequer seriam espíritos de mortos, mas habitantes vivos de outros planetas, conseguiriam comunicar-se com os médiuns “do planeta Terra”. “Comunicam” mil fantasias, que os astronautas e exploradores do espaço modernos têm demonstrado serem completamente falsas.

Em todas as épocas, em todos os povos, o inconsciente dramatizou suas próprias comunicações, atribuindo-as a todo tipo de seres, de acordo com a mentalidade ambiente. Há muitos tipos de prosopopéias. Atrevo-me a dizer a prosopopéia de espíritos de mortos não é a mais freqüente na história. Muito mais freqüentes -e também erradas- foram e voltaram a ser as prosopopéias ou personificações de demônios E há até umas outros 56.000 tipos de prosopopéias… ou seitas religiosas.

Como transmitem os etnólogos Letourneau e Bonwick, para “as raças primitivas, os habitantes da Terra do Fogo, os tasmanianos, os australianos e os hotentotes (…), nessa fase primitiva do desenvolvimento humano, a religiosidade consiste em crer na existência de divindades (da natureza) antropomorfas (como as fadas dos contos infantis), que residem nas rochas, grutas, árvores etc. (…) Um pouco mais tarde o homem, pensando mais e raciocinando (…), imagina que essas divindades são seres errantes, muito parecidos com os homens (…) Mais adiante no tempo (…) aparece o mago (ou xamã, feiticeiro etc.) que acredita comunicar-se com esses deuses e servir de intermediário entre eles e os homens”.

Pensam que são deuses, porque esses próprios deuses assim o afirmam!
Os bambara acreditam nos “disioren”, divindades da selva. Os xamãs comunica-se com esses deuses e sabe como aplacá-los quando se aproximam ou entram nos povoados.
Pelo mesmo motivo, os esquimós divinizaram um exército numerosíssimo de todo tipo de forças da natureza, cada uma de relativamente pouco poder em si mesma, mas poderosíssimas em conjunto sob o comando de Torgarsuk. Todo esse enorme exército de gênios está a serviço e em comunicação com seus xamãs.

Também porque assim o afirmam os próprios gênios!
A mitologia germânica e escandinava, nas suas intermináveis noites de inverno, foi criando, ao longo dos séculos e adquirindo certeza de que se comunicavam com gnomos, silfos, sífiles, normas, valquírias, alfes etc.
Como não? “Eles mesmos o afirmam”!

ATRASO DEMAIS!

Com o mesmo direito e pelo mesmo motivo que os espíritas apresentam para que se aceite a afirmação ou “assinatura” dos espíritos dos mortos, teríamos de aceitar todos esses seres mitológicos, cuja existência, ou mesmo o conceito, geralmente é absurdo e contraditório.

É ignorância, ou fanatismo, ou má vontade, ou mesmo parafrenia demais…, que os “mestres” espíritas de hoje não estejam de acordo com a descoberta do inconsciente pela psicologia moderna. Hoje o transe -espiritóide, hipnótico, êxtase místico etc.- é bem estudado e conhecido. O mínimo que todo “mestre” espírita deveria saber de psicologia é que a primeira característica do transe é, indiscutivelmente, a obnubilação do senso crítico e a exaltação da capacidade inconsciente de fabulação. A pessoa em transe não pode distinguir a ficção da realidade. Se distinguisse e não fabulasse, não seria honesto, e estaria fingindo o transe… O valor da afirmação de que é um espírito de um morto é, simples e absolutamente, zero.

Mas nem sequer estão a par de conhecimentos alcançados pelos pensadores da Grécia clássica -e nisto Allan Kardec e os antigos “mestres” espíritas mostram uma ignorância assombrosa.

Pitágoras e Platão, pela observação de que os fenômenos hoje chamados parapsicológicos estão sempre ligados a uma pessoa, logo rejeitaram qualquer tipo de prosopopéias, ou máscaras, ou “assinaturas” que o inconsciente pusesse. E falam em termos quase modernos de divisão da personalidade: “Divisão da psique em duas partes”.
Plutarco, Platão e Xenofonte rejeitam o daímon (=divindade inferior) com que Sócrates acreditava estar em comunicação, e explicam os fatos pela “alma racional” de Sócrates sem que o próprio filósofo percebesse: quase ao pé da letra a descrição moderna do inconsciente.

E o neoplatônico Porfírio, analisando as manifestações “assinadas” pelos deuses comunicantes dos oráculos, adivinhos, magos e pessoas em “êxtase” ou transe, deduz que “a causa (…) é uma afecção mental (…) derivada da sobreexcitação do psiquismo (…) O daímon aderido a nós (…) é uma certa parte do psiquismo humano”.

“O próprio espírito afirmou” estar com sede… Mas não era verdade. Não gosta…

OS MAIS ALTOS “ESPÍRITOS DE LUZ”

A situação torna-se pior para a lógica (?) dos “mestres” espíritas no uso deste falso argumento (“eles próprios o afirmam”), quando a “assinatura” da comunicação do inconsciente corresponde aos nomes mais sagrados. Só cabeças completamente distorcidas poderiam acreditar:

“Vida de Jesus ditada por ele mesmo”, obra original em francês, traduzida para o italiano, espanhol e por fim no Brasil. “Corolarium: Obra ditada pelo magnífico espírito de Maria de Nazaré, excelsa mãe de Jesus Cristo. Prefaciada pelo apóstolo Tiago”. “Elucidário. Obra ditada pelo espírito de Paulo de Tarso”. Com prefácio de irmão Tomé (Santo Tomé!).

Os santos mais cuidadosamente fiéis ã doutrina católica e adversos a toda sombra de espiritismo como S. Paulo ou “Paulo de Tarso”, o “príncipe dos Apóstolos” S. Pedro, S. “João Evangelista” etc., misturados com as doutrinas e ambiente das sessões de espiritismo!

Os “prolegômenos” do primeiro livro de Allan Kardec foram assinados por “S. João Evangelista, Sto. Agostinho, S. Vicente de Paulo, S. Luís, O Espírito da Verdade” (o Divino Espírito Santo!).

Depois desses santos católicos e da própria Terceira Pessoa Divina, assinam espíritos pagãos: “Sócrates, Platão”, e por fim “Fenelon, Franklin, Swedenborg etc., etc.”

Contra a doutrina predileta (embora absurda) do espiritismo kardecista é preciso perguntar se tão grandes santos e sábios ficaram tão distraídos no além que se esqueceram de reencarnar…
Tais livros são divulgados em milhares de livrarias, bancas e centros espíritas.

KARDEC SE TRUMBICA

Contra esse falso argumento (“eles mesmos o afirmam”) que usou no seu primeiro e principal livro, mais adiante Allan Kardec terminou por cair num torvelino de dislates. Principalmente quando os “espíritos” (não há espírito humano sem corpo material ou ressuscitado) se atribuem nomes celestes ou famosos: À identificação dos espíritos dedica Kardec todo o capítulo XXIV de “O livro dos médiuns”. Observe o prezado internauta os malabarismos e sofismas que Kardec vai fazendo, tudo com o maior apriorismo e falta de provas. Observe como escorrega, pretendendo defender o que no mínimo de lógica é indefensável:

“Os espíritos não nos trazem ata de notoriedade (documento de identidade) e sabe-se com que facilidade alguns dentre eles tomam nomes que nunca lhes pertenceram (…) A identidade dos espíritos das personagens antigas é mais difícil de se conseguir, tornando-se muitas vezes impossível (…) À medida que os espíritos se purificam e elevam na hierarquia, os caracteres distintivos de suas personalidades se apagam, de certo modo. Nessa culminância, o nome que tiveram na Terra (…) é coisa absolutamente insignificante”.

É insignificante a identificação? Pode-se deixar nessa ambigüidade? Não posso deixar de lembrar aquela ambígua redação de um jornalista que escreveu nestes termos sobre a cerimônia do “bota-fora” de um navio: “Como complemento da imponente cerimônia, a encantadora filha do almirante quebrou uma garrafa de champanhe contra sua popa enquanto deslizava graciosamente à água”. Não seria conveniente identificar a quem pertencia a “popa’ e quem ou o que deslizava graciosamente?

Continua Kardec: “Notemos mais, que os espíritos são atraídos uns para os outros pela semelhança de suas qualidades (…) Se considerarmos o número imenso de espíritos que, desde a origem dos tempos, devem ter galgado as fileiras mais altas” (…)

Será que é “imenso o número de espíritos que galgaram as fileiras mais altas”, pondo-se “pela semelhança de suas qualidades”, nessa culminância, no mesmo nível de Jesus Cristo, ou do “magnífico espírito de Maria de Nazaré, excelsa Mãe de Jesus Cristo”??? Por muito purificado e desenvolvido que fosse esse espírito, certamente estaria cometendo gravíssima usura e orgulho ao assinar com os sacrossantos nomes de Jesus Cristo e Maria de Nazaré…

E continua disparatando Kardec (e, pior!: continuam copiando-o os “mestres” de hoje!): “Porém, como de nomes precisamos para fixar as nossas idéias, podem eles tomar o de uma personagem conhecida, cuja natureza mais identificada seja com a deles (…) Pode, sem dúvida, o espírito dar provas (de identidade) atendendo ao pedido que se lhe faça, mas assim só procede quando lhes convém (?!). Geralmente semelhante pedido o magoa, pelo que deve ser evitado (?!). Com o deixar o seu corpo. O espírito não se despojou da sua susceptibilidade (…) Suponhamos que o astrônomo Arago, quando vivo, se apresentasse numa casa onde ninguém o conhecesse e que o apostrofassem deste modo: dizeis que sois Arago, mas não vos conhecemos; dignai-vos prova-lo (…) Que responderia ele?”

Será que Arago se irritaria se lhe pedissem que “se dignasse identificar-se numa casa onde ninguém o conhecesse”? Não é o que todos fazem em qualquer assunto importante? E o espiritismo pretende que se aceite a comunicação e doutrina espíritas sem exigir irrefutáveis mostras de identificação?

Os próprios Iahweh, Cristo e o Espírito Santo, os profetas, os apóstolos… submetem-se à identificação, prometeram como prova de identificação e realizam inúmeros milagres. Os espíritos dos mortos não devem nem sequer dar seu verdadeiro nome?
Mas… o cúmulo: Umas linhas mais adiante (“O livro dos médiuns”, nn. 255-259) o próprio Kardec se contradiz completamente:

“Deve-se concluir daí que a recusa de um espírito a afirmar sua identidade, (quando interrogado) em nome de Deus é sempre uma prova manifesta de que o nome que ele tomou é uma impostura; mas também que, se ele o afirma, essa afirmação não passa de uma presunção, não constituindo prova certa”.
Por evitar jurar em falso seria honesto quem está cometendo uma impostura?!

“O próprio espírito afirmou” estar com fome… Mas não era verdade. Tinha repugnância

E MAIS ABSURDOS E MAIS CONTRADIÇÕES!

Continua Kardec destruindo contraditoriamente todo intento de identificação: “Dirão sem dúvida que, se um espírito pode imitar qualquer assinatura, pode também pode também imitar a linguagem. Assim é. Vimos alguns que utilizavam com descaramento o nome de Cristo, e para iludir melhor, simulavam o estilo evangélico, prodigalizando a torto e a direito as palavras bem conhecidas ‘em verdade, em verdade vos digo'” (n. 223).

Continua Kardec: O médium “tira de sua imaginação teorias fantásticas que, de boa fé, julga resultarem de uma comunicação (…) É de apostar-se então mil contra um que isso não passa de reflexo do próprio espírito do médium (…) São os próprios médiuns que, arrebatados pelo ímpeto de suas próprias idéias, pelas lentejoulas de seus conhecimentos literários, (…) apresentam suas próprias idéias como sendo dos espíritos” dos mortos (n.241).

E “porque eles próprios o afirmam” vamos a aceitar a doutrina espírita?
Como acreditar em espíritos que começam mentindo, roubando e apresentando-se com adornos alheios, apresentando-se como os mais nobres, os de máxima luz, os mais puros?
Compreendem-se essas imposturas em manifestações do inconsciente. Mentiras, imposturas, compensações psicológicas… são próprias da histeria.

Pela afirmação de que os espíritos se atribuem nomes que não lhes correspondem, o próprio Kardec e “mestres” espíritas excluem a participação dos espíritos bons nas suas sessões. Então o argumento “porque eles mesmos o afirmam…” só é válido, quando nos dão nomes de espíritos inacreditáveis, baixos, vulgares e desconhecidos!!

O curioso (?) é que Allan Kardec implicitamente reconhece isto: nenhum espírito bom, nenhum “espírito superior” na terminologia dos espíritas, poderia usar um nome que não lhe corresponde:

Perguntando a um espírito que sob juramento se autodenomina Filho de Deus, Kardec argumenta: “És então Jesus? Isto não é provável. Jesus está muito altamente situado para empregar um subterfúgio”.

=Portanto, usar esse subterfúgio de nome que não lhe corresponde é exclusivo de espíritos (?) de baixo calão.

Só se poderia acreditar, contraditoriamente, no “pai da mentira”, os demônios (os espíritas identificam espíritos de mortos perversos com os demônios). Se segundo o espíritos de luz mentem conscientemente e pavoneiam-se soberbamente, contraditoriamente só seria verdadeiro o testemunho dos mentirosos demônios quando reconhecessem humildemente (nunca!) serem baixos e perversos! Portanto, o testemunho espiritóide essencialmente é sempre nulo, nada vale.

O curioso é que o próprio Allan Kardec refuta diretamente o argumento (?) de que “eles próprios o afirmam”! Kardec abertamente nega toda autoridade aos espíritos, precisamente porque não-identificados. Toda a autoridade estaria única, apriorista e contraditoriamente no bom senso (?) dos seguidores desta suposta revelação espírita…: “Não há outro critério, senão o bom senso para se aquilatar o valor dos espíritos. Absurda será qualquer fórmula que eles próprios dêem para este efeito e não poderá provir de espíritos superiores”. (E por sua vez, esta afirmação, em contradição com o argumento, é também contestada pelo próprio Kardec em outras oportunidades).

REFUTAÇÃO BÁSICA

É muito difícil ou impossível encontrar uma linha reta de argumentação em Kardec. Como em toda pessoa vítima de fanatismo, precisamente porque o fanatismo não tem lógica nem argumentação coerente.

O caso é que nas “Obras póstumas”, com referência à sua iniciação no espiritismo, Kardec mostra que nunca chegou a identificar o seu próprio espírito guia! Ou sempre procurou fugir, escapulir, escorregar…

Primeiro, sob o título “Meu espírito protetor”, Kardec fala do espírito de Zéfiro. Depois, sob o título de “Meu guia espiritual” e cognominando-o de “meu espírito familiar” já passa a chamá-lo “A Verdade”. Mas, mesmo assim, o caráter escorregadio de Allan Kardec projeta-se no seguinte diálogo. Kardec: “Animaste alguma pessoa conhecida na Terra?” Resposta de A Verdade: “Disse-te que para ti eu era A Verdade. Este (termo) ‘para ti’ quer dizer ‘discrição’, não deves querer saber mais”.

E deste desconhecido, deste não-identificado, de quem nem tentar decifrar a identidade é permitido, Kardec teria recebido a missão de implantar o espiritismo!
A doutrina revelada… por quem? Pode haver maior contradição ou mais completa refutação do pretenso argumento “eles mesmos o afirmam”?

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