A famosa sensitiva de Roma, Sandra Bajetto “enganou” muitos “sábios”. Várias vezes em contato com objetos adivinhava coisas referentes aos donos dos mesmos. Deduziram que captava impregnações? Puro engano.
Os presentes sabiam do que se tratava…: HIP.

FREQÜÊNCIA – Em primeiro lugar deve-se destacar que HIP é muito mais freqüente que a telepatia ou qualquer outro fenômeno paranormal, extra-sensorial. Já Puységur, um dos primeiros investigadores do hipnotismo, advertia os hipnotizadores contra o erro de considerar como telepatia muitos atos que não o são, tanto que chegou Puységur a afirmar expressamente que “era erro pensar que, por meio de um sonâmbulo (hipnotizado) clarividente se pudesse adivinhar o pensamento de uma pessoa ausente, pois o único que se obtinha em tais ocasiões era inspirado inconscientemente pelo próprio observador”.

Uma experiência fácil, inspirada no livro do parapsicólogo Pe. Júlio Maria (“Os segredos do Espiritismo”). Com excelentes reflexões contra o Espiritismo, a experiência tem comprovado inúmeras vezes que HIP é mais fácil e freqüente que a telepatia. Os leitores podem repetir a experiência com facilidade.
Se a um adivinho, médium, radiestesista etc., se apresenta uma série de envelopes, não é impossível que alguma vez o adivinho seja capaz de dizer o conteúdo de algum desses envelopes. Mas se não fomos nós mesmos que escrevemos as frases dos envelopes, mas um amigo que no-las enviou por correio (e isto é mais seguro do que a entrega pessoal para se evitar toda a hiperestesia inconsciente em nós), comprovaremos que só rarissimamente, em proporção enormemente menor e só muito bom adivinho será capaz de dizer-nos o conteúdo do envelope.

Esta experiência, ou semelhantes, provam perfeitamente que no primeiro caso, i. é, quando a consulta é feita pela própria pessoa que escreveu, é mais fácil acertar, por tratar-se de Hiperestesia Indireta do Pensamento. Mas no segundo caso onde não pode haver sinais inconscientes, os acertos são mais difíceis e raros por tratar-se de telepatia ou conhecimento extra-sensorial.

Muitas vezes é o espectador que se trai a si mesmo, ao consultar a um adivinho, ou nas sessões mediúnicas, ou… O médium ou adivinho não sabe mais do que aquilo que o consulente lhe diz na linguagem dos sinais inconscientes e involuntários. O estado de transe do médium, ou de delírio, narcotismo, histeria em que entram natural ou artificialmente muitos adivinhos, ajuda evidentemente à hiperestesia. Por outra parte, a corrente de certas sessões espíritas favorece a hiperestesia do pensamento de tipo cumberlandismo. Cumberlandismo e HIP em geral, combinados, podem, é claro, chegar a limites insuspeitos em pessoas especialmente “dotadas” e especialmente treinadas.

E o resultado, pode ser só o de confirmar o consulente na sua idéia talvez errada. Já no seu tempo dizia Richet: “Se eu conheço a palavra Margarida que o médium deve dizer, e mormente se o médium tem dúvidas, eu lhe fornecerei, muito ingenuamente, as indicações que precisar, retificarei seus erros, serei seu cúmplice involuntário…”

E há outro perigo. O adivinho simplesmente revela os pensamentos, os temores dos consulentes. Um consulente, por exemplo, pode estar com medo infundado de estar doente do fígado. O adivinho pode confirma-lo no erro, com perigosas conseqüências.

A MAL CHAMADA CRIPTOSCOPIA
– Criptoscopia, com propriedade de linguagem só pode tomar-se em sentido fisiológico. Criptoscopia fisiológica seria a visão verdadeira através dos corpos opacos: visão autêntica, ocular, impressão retiniana por qualquer tipo de raios luminosos, ou outros desconhecidos como queriam alguns metapsíquicos (nome dado aos antigos parapsicólogos).
Não seria criptoscopia propriamente a visão alucinatória por adivinhação.

Criptoscopia, fisiológica, para os especialistas em Parapsicologia, é só um aspecto da hiperestesia direta estudada no 1º artigo desta série. Visão retiniana através dos corpos relativamente opacos, opacos só para as pessoas normais, não verdadeiramente opacos para os sensitivos.
Alguns metapsíquicos, porém, acreditaram que havia verdadeira visão através de corpos verdadeiramente opacos! Tal criptoscopia neste sentido estrito, não tem base nenhuma científica. É por isto que escrevemos no título: “A mal chamada criptoscopia”.

Tratando de demonstrar a visão através dos corpos opacos, por erro nas condições de experimentação fizeram-se muitas e magníficas experiências de Hiperestesia Indireta do Pensamento, isto é, de captação do pensamento de outra pessoa por meio de sinais inconscientes por ela emitidos, HIP. Nas experiências estava presente a pessoa que sabia o que havia sob o objeto opaco…

Grande fama alcançaram as magníficas experiências na Rússia com Sofia Alexandrovna. Foram dirigidas pelo Dr. Chowrin, diretor do Asilo de Alienados, de Tambow.

Com a ajuda de diversos colegas da Sociedade Médica de Tambow, o Dr. Chowrin tomou precauções, engenhosíssimas, para pôr-se a resguardo das fraudes assombrosas a que irresponsavelmente pode chegar uma histérica.

Escreveram-se cartas em caracteres tão finos que não se podiam distinguir senão com uma lupa. As cartas eram postas em envelopes, que, uma vez fechados, eram pintados com anilina preta para fazê-los mais opacos. Algumas vezes meteram-se também nos envelopes papéis fotográficos sensíveis para descobrir se por acaso os envelopes eram abertos furtivamente. Não obstante todas as precauções a doente descreveu o conteúdo das cartas em experiências repetidas umas quarenta vezes.

Os investigadores concluíram que a doente lia as cartas através dos envelopes opacizados pela anilina e através dos papéis fotográficos… Em primeiro lugar estas experiências caíram também no defeito fundamental de estarem presentes à prova as mesmas pessoas que escreveram e leram as cartas. Isto bastaria para explicar o fenômeno: HIP.

Mas nas atas das experiências temos argumentos que apoiam a explicação por Hiperestesia Indireta do Pensamento. Com efeito, não se podia supor visão através dos corpos opacos, porque Sofia Alexandrovna não olhava para os envelopes, como expressamente se afirma numa experiência que dirigiam os Drs. Troitzki e Speransk.

Outro dado muito significativo: se não sempre, ao menos freqüentemente não se “lia” o texto mesmo da carta; descreviam-se as imagens correspondentes.
Por exemplo, numa carta escrita pelo Dr. Andreoff dizia-se: “No deserto da Arábia erguem-se três palmeiras, entre as quais flui um manancial murmurante”. Alexandrovna diz: “Um grande espaço. É um areal branco como a neve, mas não é neve. Três árvores muito altas, nunca vi nada semelhante. Poucas folhas, folhas compridas. Um manancial, cujo murmúrio ouve-se claramente”.
“Ouve-se”. É a alucinação típica provocada reflexamente pelos sinais captados inconscientemente, por HIP. Não se leu a carta: captaram-se as idéias ou imagens.

Noutra experiência tinha-se escrito: “Sofia Alexandrovna está na sua cama e olha para a parede”. A doente diz sem olhar para a carta: “Enxergo uma cama, sou eu que estou na minha cama, com fitas atadas ao queixo”.

Não se lia a carta por criptoscopia. Captava-se o pensamento dos assistentes: “É você tal como está na cama…”
Que não se trata de telepatia ou clarividência paranormais, extrasensoriais, é claro, entre outras razões porque não se precisaria a presença dos experimentadores ou da carta.

A explicação por HIP supõe que a doente seja hiperestésica. Era-o em grau sumo. Como temos descritos a propósito de alguns cegos, também Sofia Alexandrovna distinguia as cores pelo tato (DOP = “Dermo-Optical Perception”). Pelo tato (ou pelo olfato, etc.) distinguia também os sabores.
Os investigadores de Tambow enchiam garrafas com soluções de soda, de cloreto de sódio, de cloridrato de quinina, de sulfato de zinco… Depois umedeciam pequenos fragmentos de papel numa destas soluções.

Alexandrovna em contato com os papéis, sentia imediatamente o gosto do sal, do ácido, do adstringente ou do amargo.
Tomaram aqui a precaução de que umedecesse o papel alguém que depois não assistiria à prova com Sofia Alexandrovna. Os investigadores, pois, não sabiam qual solução era a empregada. Esta precaução não a tomaram nas experiências com cartas. Por que? Não seria porque se estava ausente o conhecedor do escrito, a experiência fracassava? Mas, diante dos papéis impregnados, a sensitiva não precisava de sinais inconscientes dos assistentes; bastava a hiperestesia direta (HD) do olfato, do gosto ou do tato sobre os objetos.

Sendo a doente extraordinária hiperestésica, como demonstram estas últimas experiências com papéis impregnados, não Caricatura. Diz que são comunicações dos mortos… e – como previsto! – está captando dos próprios vivos.

será de estranhar que, por hiperestesia dos sinais inconscientes, captasse indiretamente os pensamentos dos assistentes. As experiências de Tambow, como se vê, não provam a criptoscopia, isto é, visão retiniana através dos corpos opacos (supondo que fossem verdadeiramente opacos os materiais empregados). Menos ainda provam a clarividência ou telepatia parapsicológica, extra-sensorial. São, porém, de alto valor em prol, uma vez mais, da HIP.
Dentro do âmbito da hipnose, são muitas as considerações práticas que se podem tirar do que temos exposto sobre HIP. Entre estas está, repetimos, a do perigo que podem ter sugestões só pensadas pelo hipnotizador e não manifestadas. Pacientes muito sensitivos ou treinados podem captá-las por HIP. Como aquelas sugestões não foram dadas expressamente, se o hipnotizador não as retira, em certos casos podem depois trazer complicações.
Já em 1784, Puységur descobria que com um dos seus pacientes não tinha necessidade de falar para dar as sugestões “magnéticas” (hipnóticas, diríamos hoje).

“Eu pensava, simplesmente, na sua presença e ele me compreendia e me respondia… Quando ele se mostrava disposto a dizer mais do que eu julgava prudente deixar entender, eu, só com o pensamento, interrompia imediatamente suas idéias cortando as frases no meio de uma palavra e modificava completamente seu curso”.

Por não suspeitarem da HIP, muitos investigadores tiraram conseqüências infundadas nas suas experiências com hipnotizados. Assim, por exemplo: quiseram provar a frenologia servindo-se das manifestações de pessoas submetidas à hipnose. Diziam: se estimulados uma determinada zona do crânio e o hipnotizado reage segundo o sentimento corresponde à zona frenológica excitada, isto prova evidentemente que a frenologia está certa quando diz que “Cada sentimento… tem uma sé no crânio e o estímulo destas zonas provoca o sentimento”. Não poderia ser fingimento por parte do hipnotizado, porque como poderia um hipnotizado “analfabeto” saber qual o sentimento que se deve excitar nesta ou naquela zona?

Este raciocínio, errado, vem já dos primeiros estudiosos do hipnotismo. Assim Braid acreditava demonstrar a frenologia com a seguinte observação:
Um paciente quando se lhe estimulou a zona da cordialidade e o afeto, abraçava o médico; ao ter estimulado o órgão da combatividade no lado contrário da cabeça, com o braço correspondente golpeou dois cavalheiros que imaginou que iam agredi-lo, de tal forma que quase deixou um deles estendido no chão; enquanto isso, com o outro braço continuava a abraçar o médico da maneira mais afetuosa.
E assim com outras zonas.

Mas o argumento não serve: o hipnotizado pode por HIP adivinhar as idéias preferidas do experimentador e acomodar-se a elas nas manifestações.
Ainda dentro do âmbito da hipnose. A mesma falha de argumentação têm cometido muitíssimos investigadores. Alguns experimentadores querem provar suas teorias sobre o hipnotismo baseando-se nas descrições de hipnotizados incultíssimos nas teorias hipnóticas. Outros experimentadores provam teorias diferentes, aduzindo este mesmo argumento das descrições dos hipnotizados incultos…

No entanto, pode ser que os hipnotizados, apesar de não saberem nada de hipnose teórica, captem, por HIP as teorias preferidas do mesmo hipnotizador…
Um dos erros mais lamentáveis e freqüentes é o daqueles que procuram provar uma regressão da idade até o óvulo fecundado e inclusive até o espermatozóide… Dizem: como poderia o hipnotizado, sendo inculto, descrever perfeitamente o espermatozóide, a evolução do óvulo, etc? O hipnotizado não o sabia, mas aí está o médico hipnotizador que o sabe, e o hipnotizado o confirma nas suas idéias mesmo que estejam tão equivocadas como essas.
As conseqüências práticas que poderíamos tirar da HIP são numerosíssimas…

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