Os Exorcismos foram abolidos do Ritual Romano. Mas, por motivos econômicos recentemente foram traduzidos do latim a muitas línguas e divulgados. E assim a discussão passou também a líderes de numerosas seitas e inclusive ao povo. Entre os argumentos de possessão (“argumenta obsidentis daemoni”), secularmente a hierarquia da Igreja Católica considerou em destaque o fenômeno que a Parapsicologia chama sansonismo, isto é, segundo o Ritual Romano :

img001“Manifestar forças superiores à natureza…” Alguma vez uma jovem “endemoninhada” manifestou tanta força e resistência como Tom Owen, de Alabama? Com os músculos do abdome resiste ao peso de uma caminhonete com vinte crianças. Num show de beneficência: oh, demônio bonzinho!

“Manifestar forças superiores à natureza da idade ou condição” (“vires supra aetatis et conditionis naturam ostendere”). O Professor Padre Giovanni Batista Alfano, em outros temas bom parapsicólogo, e outros muitos defensores da existência de possessões demoníacas, “traduzem” e interpretam a frase do Ritual no sentido de força superior à natureza humana naquela idade e condições. — Talvez possamos estabelecer qual a força normal em determinada idade e hábitos de uma pessoa. Mas parece “petitio principii” (pressupor o que se trata de demonstrar) “traduzir” como forças musculares superiores às da natureza humana. Tal “tradução” equivale a dizer: É endemoninhado quem manifesta força demoníaca; está possuído quem manifesta força de possuído; age sobrenaturalmente quem manifesta força sobrenatural. “Petitio principii”, que tira todo valor à pretendida argumentação. O ENDEMONINHADO (?) GERGESENO  Transmite o evangelista São Marcos: “Ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes já o haviam prendido com grilhões e algemas, mas ele arrebentava os grilhões e estraçalhava as correntes, ninguém conseguia subjugá-lo” (Mc 5,3s.).

img002Nas celebres experiências no I.M.I. com a Sra. Kahl, sob a direção do excelente parapsicólogo Dr. Eugéne Osty.

A linguagem antiga oriental freqüentemente é exagerada. Tomar sempre ao pé da letra certas expressões é desrespeito à Bíblia. Neste caso a expressão bíblica quer ressaltar a ferocidade e força do energúmeno, assim cabem perfeitamente interpretações bem atenuadas. Haveria que ver se simplesmente se desvencilhou. Mesmo aceitando que quebrou correntes, qual a grossura ou resistência delas? Poderia ser depois de bastante tempo golpeando-as contra as rochas… É preciso levar em conta também a insensibilidade que certo tipo de doentes pode adquirir (tema de outro artigo). Esse sansonismo não pode apresentar-se como argumento de possessão…

OS ENDEMONINHADOS (?) DE ILLFURT
Um dos casos mais notáveis na história pós-bíblica foi o dos irmãos Burner. Na biografia destacam que “eram freqüentemente atormentados pelo fenômeno de sentirem contrair-se-lhes as pernas de modo terrível e depois ligar-se-lhes como por cordas, sem que fosse possível a ninguém desatá-los”.

É manifesto o estilo ponderativo. Mas mesmo supondo tudo real e bem objetivo, não se trata de dominar dois dedos, ou as mãos, mas as pernas, muito mais fortes. E que estavam entrelaçadas. E os “exorcistas” com cuidado de não machucar “as pobres vítimas”’ de Satanás… Pretendem fazer-nos aceitar que se tratava de uma força sobre-humana. Várias vezes, porém, o próprio Satanás (?) declarava “que não podia fazer uso de uma força maior daquela que a idade dos meninos por ele possuídos lhe permitia; mas que se tivesse podido se apossar, como especialmente lhe agradava, de homens adultos e robustos, ninguém haveria podido dominá-lo”. Esta declaração, que as testemunhas e biógrafo aceitam, refuta que se tratasse de força sobre-humana.

Durante o transe hipnótico, no paroxismo de uma crise de nervos, num ataque convulsivo histérico…, pode manifestar-se enorme força. A um louco em plena crise, sem camisa de força, é dificílimo dominá-lo. Não poderá a situação parapsicológica aproveitar ao máximo as forças musculares, nervosas, numa máxima concentração e respiração profunda? A sugestão pode levar os músculos a um enrijecimento pleno: catalepsia. Os músculos poderiam quebrar-se, mas não dobrar. Muitos bons manuais de hipnotismo apresentam ótimas experiências sistemáticas da catalepsia. Pode fazer que se aproveite até extremos realmente incríveis as energias musculares e nervosas do homem e a sua resistência à fadiga: pareceria que a força depende mais do cérebro do que dos músculos, como já concluía por exemplo K. Platanov, entre os pioneiros do hipnotismo. Só haveria que pensar na hipótese demoníaca para o sansonismo se entre vários “exorcistas” não conseguissem desinchar as maçãs do rosto que as crianças inflassem de ar. Mas esses casos e semelhantes nunca aconteceram…

img003Recolhendo casos históricos, embora geralmente exagerando-os e juntando-os todos na mesma pessoa, o que não pode ser real, William Peter Blatty na sua novela e filme “O exorcista” apresenta uma cena de sansonismo: a menina “endemoninhada” teria derrubado ao mesmo tempo os apavorados Padres Karras e Merrin.

O ENDEMONINHADO (?) DA CONCHINCHINA

Refere o exorcista, Pe. Delacourt: “Acompanhavam-no a mãe e alguns parentes, com o catequista do lugar e outros cristãos; e o apresentaram como possuído pelo demônio, assegurando-me que se requeria toda a força deles para conduzi-lo, e que à medida que se aproximavam da igreja a sua resistência aumentava, e que por fim quando chegaram ao pequeno hospital vizinho da igreja, foram constrangidos a deixá-lo, pois não puderam com todos os esforços fazê-lo passar adiante”.

– O que tem a ver esse sansonismo com o demônio? A força que pode manifestar um jovem entre 18 e 19 anos, nos momentos de máxima excitação! É praticamente impossível segurar um jovem que esperneia e se debate, quando os que tentam segurá-lo não querem machucá-lo, nem atá-lo, e nem sequer irritá-lo mais. Não obstante, iam vencendo…

A ENDEMONINHADA (?) DE BENGUELA

Pela propaganda de um padre católico, tão “entusiasta” como absolutamente desconhecedor de Parapsicologia, apavorou inumeráveis pessoas na cidade de Benguela (Angola, África). O padre exorcista garantia e espalhava: “É força sobre-humana, é força do demônio”.

— Em entrevista a uma radio de lá, após várias respostas, afirmei: “O sansonismo foi comprovado com absoluta variedade ou total independência de conotações religiosas, em qualquer ambiente, em todas as épocas e em todos os povos”. E desafiei: “Se aquela moça (ou qualquer outra) alguma vez só com um dedo levantasse um piano de cauda, ou com uma só mão levantasse um caminhão, ou derrubasse um muro…, caberia pensar em força sobre-humana. Mas isso nunca aconteceu. Essas considerações bastam para compreender que é um fenômeno humano”. E de fato bastou para convencer médicos, psiquiatras… de Benguela e para que as autoridades eclesiásticas proibissem ao padre continuar com os exorcismos. E BASTA

Sobre este falso argumento de “manifestar forças…”, o exposto parece suficiente. Dispensa-me de uma mais pormenorizada exposição do hiperdinamismo psicológico ou psiquiátrico e do sansonismo parapsicológico.

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