UM GÊNIO DESCONHECIDO

O mundo dos sonhos.
Quantas vezes as pessoas procedem de maneira esquisita “sem saber por quê”. Quantas vezes muitas pessoas estão tristes e não sabem o motivo. Numa boa porcentagem dessas ocasiões uma análise profunda descobriria os motivos inconscientes de ordem intelectual. Sensações inconscientes e fatos arquivados no inconsciente, se associam.

Na fase sonambúlica da hipnose comprova-se facilmente a associação inconsciente. A memória se exalta reproduzindo com pasmosa exatidão cenas, pormenores, conhecimentos que pareciam totalmente esquecidos. A imaginação, por sua vez, aviva-se também, a linguagem atinge um brilho e colorido notáveis. Nada, pois, tem de estranho que a atividade intelectual inconsciente se exalte também ao máximo. Os casos que o comprovaram são numerosíssimos.

Para citar um caso concreto, eis, tomado quase ao acaso, o que refere Renaud:
No estado de sonambulismo hipnótico um parente do próprio Renaud resolvia fácil e elegantemente um problema de trigonometria. Antes e também depois da hipnose, porém, via-se embaraçado com o problema, na realidade difícil.

O inconsciente estava atualizado e combinava mais dados, resolvendo o problema com notável facilidade.

DORMINDO SOMOS MAIS INTELIGENTES DO QUE ACORDADOS

O talento do inconsciente é, às vezes, tão grande, que alguns autores foram levados erroneamente a atribuir responsabilidade ao sono. Freud o fez, por exemplo, e Grünewald.
O problema já é antigo. O famoso teólogo e filósofo Caramuel endereçava em Wurzburg no ano 1645, uma carta sobre o assunto ao famoso cientista da época, Pe. Atanásio Kircher S.J., professor na Universidade Gregoriana. Defendia a “responsabilidade nos sonhos, porque havia neles inteligência” (!).

O aspecto da inteligência é o que nos interessa: “Examinando muitos sonhos meus e de outros, encontro circunstâncias nas quais não se pode descobrir imaginação ou fantasia. Ainda mais, neles se percebe inteligência bastante cultivada e sutil”. Em continuação, refere um exemplo dentre os sucedidos a ele mesmo:

Caramuel sonhava que assistia a uma discussão solene. Nela, convidado a impugnar as teses defendidas, o fez com todo vigor e eficiência e com argumentos inéditos. Ao acordar, impressionado, examinou os argumentos empregados no sonho. Comprovou que eram perfeitos e certamente inéditos.

O inconsciente, com os conhecimentos do sábio teólogo e filósofo, os elaborara. Em vigília dificilmente teria conseguido esse resultado. A carta conclui: “O entendimento do homem dormindo não descansa, mas trabalha sempre e, às vezes, perfeitissimamente. Mais ainda, com mais perfeição do que na vigília”.

O descobrimento do talento do inconsciente é, pois , muito anterior a Freud. E inclusive antes de Caramuel o descobrira Platão, como veremos. Depois de Freud, o reconhecimento do talento nos sonhos é bastante geral. Assim, por exemplo, Erich Fromm concluía nas suas aulas no Instituto de Psiquiatria William A. White e no Bennington College de New York que “nos sonhos produzem-se operações intelectuais superiores às que realizamos estando acordados”.

INTUIÇÔES – A intuição é uma visão intelectual que parece vir do fundo da alma, uma revelação provinda do interior e que não depende do esforço mental. De repente, percebemos alguma coisa que, depois, freqüentemente comprovamos ser preciosa e verdadeira.

Pasteur, como conclusão de uma ampla pesquisa, dizia que as grandes intuições só eram dadas aos que se preparavam para recebê-las. O investigador, o experimentador, o filósofo, tem de repente uma intuição genial, sem saber de onde proveio, mas antes tinham empregado muito tempo e energia em procura da solução que agora se apresenta súbita, “irracional”, “sem lógica”.

O Dr. Irving Langmuir, no discurso pronunciado a 16 de dezembro de 1942 ao deixar o cargo de presidente da “American Association for the Advancement of Science”, comunicou: “Freqüentemente subestimamos a importância da intuição. Em quase todos os problemas científicos, inclusive naqueles que nos tomaram dias e meses de trabalho, a solução final se apresentou ao nosso espírito numa fração de segundos, por um processo que, conscientemente, não deve nada ao raciocínio”. È o resultado de um raciocínio inconsciente.

Persigout, matemático, demonstrou que Descartes, como Kepler, Pascal e outros deveram uma grande parte das suas descobertas ao trabalho do inconsciente.

INTELIGENTES REALIZAÇÕES DO INCONSCIENTE – Eis em rápidas pinceladas alguns dos muitos casos de manifestações inteligentes do inconsciente recolhidos por diversos autores:

Zwinger refere o caso de dois senhores que, de noite, se levantavam dormindo e escreviam versos. “Um deles, escreve Voronff, traduzia-os do alemão para o latim; o outro, professor de poesia grega, fatigado por ter passado escrevendo o dia todo versos gregos, deixou a poesia por concluir. Qual não seria, porém, a sua surpresa na manhã seguinte quando, levantando-se para terminar a sua obra, descobriu que o trabalho já estava concluído e com a sua própria letra!” Da mesma maneira escreveu também versos gregos Woehmer von Göttingen.

A versificação latina e grega é muito complicada…
Mais ainda: La Fontaine e Condillac escreveram trabalhos inteiros de noite, sonâmbulos, sem deixar de dormir.

Coleridge afirmou ter escrito o “Kublai Khan” enquanto dormia sob a influência de um analgésico.

Do mesmo modo, um filósofo estóico escreveu livros em várias etapas, segundo nos afirma o historiador Diógenes Laertius.

Trata-se de uma obra literária e de outras filosóficas: precisa-se grande trabalho intelectual.

Voltaire relata que um canto inteiro da sua “Henriade” lhe ocorreu durante um sonho. “No meu sonho eu disse coisas, que dificilmente teria pronunciado na véspera. Passavam-me pela mente pensamentos concebidos sem que eu tivesse tomado parte (consciente) neles. Não tendo nem vontade nem liberdade (no mecanismo inconsciente do sonho) combinei idéias inteligentes e até com certa genialidade”.

Trata-se de idéias até geniais!
O investigador francês Fehr assinalou que os sábios mais produtivos da sua época realizaram de 75 a 100 por cento de suas descobertas e invenções por intuição ou por sonho:

Um caso muito conhecido de descoberta durante o sonho é o da cadeia benzínica. O descobridor, F. A. Kekule von S., tinha durante muito tempo procurado inutilmente a fórmula química do benzeno. Uma noite a viu em sonho. Teve sorte de lembrar-se dela ao acordar.

O médico canadense F. G. Banting trabalhou arduamente no assunto da diabete. Estudou as mais diversas soluções que a medicina apontava para explicar e dominar o mal. Nada o satisfazia. Um dia trabalhou desenfreadamente para encontrar uma solução. Inútil. Cansado, esgotado já, foi dormir de mau humor porque no dia seguinte deveria pronunciar uma conferência sobre o diabete e lamentava não poder oferecer uma solução satisfatória, embora pressentisse que esta solução tinha que existir. Durante a noite, sonâmbulo, levantou-se e escreveu numa beirada de papel estas palavras: “Ligar o conduto deferente do pâncreas de um cão de laboratório, esperar algumas semanas até que a glândula se atrofie, cortar, lavar e filtrar a secreção”. De manhã não tinha a menor idéia de ter-se levantado nem de ter escrito, nem sequer de ter encontrado a solução que procurava. Só ao ver a anotação compreendeu o que se passara. Assim foi como o mundo ganhou a insulina.

ESTADO CREPUSCULAR – O trabalho do inconsciente aparece ou se exerce também freqüentemente no período de desdobramento da personalidade ou em qualquer outro estado, inclusive de vigília, que obnubile mais ou menos o consciente em benefício do inconsciente.

Todos conhecemos esse estado de semiconsciência, estado crepuscular, que medeia entre a vigília e o sono. Nem dormimos nem estamos acordados. Estamos simplesmente num estado de transição. O transe espírita, o sono hipnótico, etc., são às vezes um estado similar. Pois bem, este estado, em que o consciente deixa em suficiente liberdade o inconsciente, é muito favorável às manifestações das elucubrações do inconsciente.

É o caso típico da Srta. Frank Miller. Escreve o grande parapsicólogo Dr. Teodoro Flournoy: “Médium espírita, a Srta. Miller acreditaria, sem sombra de dúvidas, ser a reencarnação de uma princesa da antigüidade histórica e pré-histórica e não teria deixado de dar-nos interessantes revelações sobre a sua preexistência egípcia, assíria ou inclusive asteca”.

Muitas pessoas espantam-se freqüentemente com esta classe de fenômenos do talento do inconsciente, realizados nas suas sessões por médiuns em transe. Sabem elas quantos dados capta e armazena o inconsciente, mesmo de uma pessoa inculta? É o desconhecimento das possibilidades do inconsciente, que levou tantas pessoas a atribuir tais fenômenos a manifestações do “além”.

“POSSUÍDO” PELO INCONSCIENTE – Particularmente os grandes poetas, pintores, músicos, etc., devem muitas das suas melhores obras de arte ao inconsciente.

A este respeito, um interessante estudo foi feito recentemente por Francesco Egidi. O autor expõe como os grandes músicos sentem freqüentemente uma espécie de orquestra mental dentro de si.

Foi notável o caso de Beethoven que sentia zumbidos nos ouvidos e uma “orquestra infernal” na cabeça quando compunha suas melodias.

A atividade inconsciente do gênio era acompanhada por estímulos do centro auditivo do cérebro.

Noutros artistas a atividade inconsciente chega a tal ponto que desaparece totalmente o consciente:
Como Frei Angélico. Pintava em arroubos de êxtase, em transe. A atividade inconsciente dominava as energias tomando conta da “máquina humana”, na sua totalidade física e psíquica.

Os antigos, observando que os grandes artistas não trabalham, produzem, inventaram as musas. Umas deusas de Segunda categoria que inspirariam aos artistas. E a palavra ficou. Ainda hoje dizem: “Hoje não estou inspirado”. Inspirado por quem? Ainda acreditas nas musas?

Como se falou em “musas”, depois em “gênios”, demônios e mais tarde em “espíritos”, dir-se-ia que os grandes artistas são influídos por inteligências estranhas. Nesse sentido o escultor Ernesto Biondi considerava os artistas como “médiuns, possuídos por seu próprio inconsciente”. Na realidade é somente o inconsciente, inconsciente estranho e, por vezes, contrário ao consciente.

UMA VIAGEM A MARTE – Mas para que se possa ver até onde chega o inconsciente nas suas elaborações, usando Paisagem do planeta marte segundo Helena Smith. Toda a trama do talento inconsciente enganou todo o mundo… dados armazenados na sua memória colossal, combinando-os com assombroso talento, acredito que o caso da médium espírita Helena Smith seja dos mais significativos, ao menos por ser dos mais estudados.

A médium Helena deu umas sessões espíritas sob o controle do Dr. Lemaitre.
Assistia às sessões uma senhora que tinha perdido seu filho, Alexis, três anos antes. Pediu-se então a Helena que evocasse o “espírito” de Alexis. Helena deu algumas respostas, como se proviessem de Alexis. Nada, porém, de notável.

Aconteceu um dia, no entanto, que o professor Lemaitre falou a um parente de Helena sobre o interesse em saber o que havia nos outros planetas e concretamente em Marte. Um mês mais tarde já o inconsciente de Helena começava a dar os primeiros sinais de suas elaborações de aventuras marcianas.

Numa sessão, Helena durante o transe viu à grande altura uma luz resplandecente, afirmando que se sentia oscilar. Logo se sentiu penetrando numa nuvem muito espessa, primeiro azul, depois cor-de-rosa brilhante, depois cinzenta, por fim, preta. Sentiu-se flutuando no espaço. Logo depois via uma estrela que ia aumentando, até ficar “maior que uma casa”. Helena sentia que ia subindo. No começo sentia os incômodos da viagem, agora começava a sentir-se melhor. Distinguiu três globos: um deles era muito bonito. “Para onde caminho?” -perguntou a médium- e, servindo-se de um vocabulário convencional por movimentos da mesa, responderam-lhe os “espíritos” (ponho sempre “espírito” entre aspas porque não há espírito humano sem corpo, mortal ou ressuscitado): “Para uma outra terra, Marte. Lemaitre, é o que você desejava tanto!”

Helena descreveu as saudações quando da sua chegada a Marte: Gestos barrocos das mãos e dos dedos, estalos duma mão sobre a outra, golpes ou aplicações destes ou daqueles dedos sobre o nariz, os lábios, o queixo; reverências contorcidas e rotações dos pés sobre o chão. Descreveu todo o que via: carros de cavalos sem cavalos nem rodas, deslizando e produzindo faíscas; casas com ondas sobre o telhado, um berço que no lugar de cortinas tinha anjos de ferro com as asas estendidas. As pessoas eram como nós, salvo nas roupas, iguais para ambos os sexos: umas calças muito amplas e uma comprida blusa apertada à cintura e recamada de desenhos.

Numa vasta sala de conferências, encontrou, na primeira fileira dos ouvintes, Alexis, o filho da senhora que assistia às sessões espíritas de Helena.

Ora, Alexis, cujo nome em Marte era Esenale, estava ouvindo uma conferência em marciano.

Lógico, portanto, que quando mais adiante falasse por meio de Helena soubesse fazê-lo em marciano. O inconsciente de Helena precisou tempo para ir elaborando, devagar, a língua dos marcianos. Mas no fim o êxito foi completo.

Alexis, no começo, falava francês. Mas de repente, passou a entender apenas e falava exclusivamente o marciano. Alexis falou numa difícil língua, desconhecida na Terra. Era “a língua de Marte”.

As sessões seriam emocionantes se não fosse o trágico engano!
Numa ocasião, a verdadeira mãe de Alexis ajoelhou-se soluçando diante de Helena, por meio da qual estaria falando seu filho. Alexis, então, consolou-a em marciano, com gestos tão doces e inflexões de voz tão ternas que a pobre mãe se sentiu enlevada.

V. Henry e principalmente Th. Flournoy estudaram a fundo a língua marciana de Helena Smith.

Analisaremos o marciano, ligando as frases mesmas usadas pelos pesquisadores:
“O inconsciente tinha elaborado uma linguagem propriamente dita”. “Para entendê-la era preciso estudá-la, para traduzi-la precisava-se de um dicionário, no qual cada palavra tinha seu significado próprio”.

“O marciano era uma língua completa, tinha sua escrita especial, combinação especial de caracteres”. “Estudado a fundo logo se via que não se tratava duma simples gíria ou algaravia de sons quaisquer, ditos ao acaso. Eram palavras, palavras que expressavam idéias e a relação entre palavras e idéias era constante, sendo constante a sua significação”.

O marciano tinha, como todas as línguas, “consoantes prediletas, sotaque característico, letras predominantes. Tinha, por exemplo, superabundância de ‘e’ abertas e fechadas, abundância de ‘i’ e escassez de ditongos e nasais”.

DESVENDA-SE O MISTÉRIO – Tal foi o prodígio, que muitos especialistas, grandes sábios, chegaram a pensar que era de fato uma linguagem extraterrena.

Mas precisos e pacientes estudos demonstraram que se tratava só de uma modificação, inconsciente, do francês. Irei citando entre aspas as frases usadas pelos pesquisadores que estudaram o caso diretamente com Helena Smith, especialmente frases dos grandes parapsicólogos Teodoro Flournoy, Augusto Lemaitre, Victor Henri, José Grasset, João Lhermitte…

Em primeiro lugar comprovou-se que “o marciano se compunha de sons que, tanto consoantes como vogais, existem todos em francês”. “A língua do planeta Marte não se permite a mínima originalidade fonética”, O mesmo acontecendo com a escrita: “Todos os caracteres marcianos e todos os caracteres franceses se correspondem dois a dois”.

Ora, nas línguas reais, isto não existe jamais. Por mais parecidas que sejam as línguas e por mais próximos que estejam geograficamente os povos que as falam, sempre possuem algum som próprio.

“Um considerável número de palavras marcianas” “reproduz de modo suspeito o número de sílabas ou mesmo de letras de seus correspondentes franceses e imita às vezes até a distribuição das consoantes e Das vogais”.

Com admirável paciência, Flournoy reproduziu, traduziu e analisou quarenta e um textos marcianos demonstrando que as regras de gramática e sintaxe marcianas não são mais do que “um decalque ou uma paródia das regras do francês”. Assim , por exemplo, em francês, os sons análogos “á” e “a”, preposição e verbo respectivamente, traduzem-se em marciano pelos sons “é” e “e”. A palavra francesa “que” tem muitos empregos; em marciano tem as mesmas funções a palavra “Ke”. “Le”, artigo e pronome francês, corresponde ao marciano “Ze”, também artigo ou pronome, etc.

“Nas frases, a ordem das palavras é absolutamente a mesma em marciano e francês. E isto até nos detalhes”; a separação, por exemplo de “ne —- pas”. Até a introdução de uma letra em certas circunstâncias fonéticas: “Quand revendra-T-il?” em francês; “Kevi berinmi-M-eb?” em marciano.

“O procedimento de criação do marciano parece consistir simplesmente em pegar as frases francesas tal qual são e substituir cada palavra por outra” qualquer fabricada a esmo, mas freqüentissimamente com “o mesmo número de sílabas e letras”. O resultado de tudo isto é que as frases são, sim, diferentes das francesas, mas na sua estrutura interna, fonética, sintática e gramatical são idênticas. Flournoy previu “a necessidade de um dicionário; não, porém, de gramática” nem de fonética.

“O sonho de Dickeres” desenho que representa o genial novelista sumido em leve sonolência, donde tirava a trama e criava imagens e personagens memoráveis.

O DESENVOLVIMENTO DA MÉDIUM – O inconsciente precisa, geralmente, algum tempo para “ir abrindo a porta do desvão” onde está escondido, e manifestar-se. Em regra se manifesta gradativamente. No começo das manifestações é fácil aos especialistas descobrir as explicações dos fenômenos. Quando um mago já se desenvolveu, i. é, quando o inconsciente já tem bastante ou totalmente aberta a porta, pode resultar dificílimo ao pesquisador explicar as manifestações a não ser por comparação com outros casos semelhantes observados do começo.

No caso Helena Smith teria sido difícil aos pesquisadores explicar a aventura e mormente a língua marciana se não tivessem acompanhado os acontecimentos do começo. A elaboração foi progressiva. “No começo o marciano é uma linguagem muito imperfeita, rudimentar”, “um pseudomarciano”, “um quebra-cabeças desordenado”, “uma pueril imitação do francês, do qual conserva em cada palavra o mesmo número de sílabas e certas letras principais”. “Só meio ano depois o inconsciente tinha elaborado uma linguagem propriamente dita”.

O inconsciente precisou tempo para manifestar parte das suas possibilidades. Mas após a aventura marciana já temos um inconsciente bastante desenvolvido, a porta já está bastante aberta. O tempo necessário para novas elucubrações é cada vez menor, o talento inconsciente de uma pessoa inculta aparece cada vez mais prodigioso.

Somente dezessete dias depois de umas objeções de Flournoy, Helena manifesta novamente o prodigioso talento do inconsciente. “Os novos costumes e a nova língua são agora localizados num outro planeta sem nome e desconhecido”. É o ciclo chamado “ultramarciano”. “Eu tinha acusado – escreve Flournoy – a quimera marciana de não ser mais do que uma imitação, envernizada com brilhantes cores orientais, do meio civilizado que nos rodeia. Agora aparecia um mundo de um extravagância medonha, com chão preto onde toda a vegetação era eliminada e os seres, grosseiros, mais pareciam bestas do que homens. Eu tinha insinuado que as casas e os habitantes de Marte deveriam ser de dimensões e características diferentes das nossas, e eis que os habitantes do novo globo eram verdadeiros anões, com cabeças duas vezes mais largas do que altas, e as casas em proporção. Salientei a riqueza do marciano em ‘i’ e em ‘e’, incriminei o som ‘ch’, a sintaxe em geral (…) tomados do francês. E eis uma língua absolutamente nova, de um ritmo todo particular, extremamente rica em ‘a’, sem nenhum ‘ch’ e cuja construção era tão diferente da nossa, que não havia meio de encontrara semelhança”. Tudo em só 17 dias!

E logo novas manifestações cada vez em menos tempo. A porta cada vez mais aberta. Já basta uma semana, três dias, um dia só! “Tinha eu feito alusão à existência possível de outras línguas” em outros planetas, sugere Flournoy, e com essas novas sugestões aparecem novas viagens à Lua, Urano, Júpiter, Netuno, etc., com suas correspondentes línguas.

Falando em Buenos Aires com o Diretor Nacional da “Sociedad Espiritista Constancia”, que agrupa o espiritismo mais culto (ou menos inculto) da Argentina, dizia-me ele depois de assistirmos a uma sessão: “Professor, não é certamente um argumento incontestável da incorporação dos espíritos nos médiuns o fato de que esses últimos até analfabetos tenham feito discursos inteligentes e dado conselhos acertados?” Limitei-me a perguntar por minha vez: “Sabe o senhor do que é capaz o talento do inconsciente, mesmo de um analfabeto?”

DRAMATURGO E NOVELISTA ÀS VEZES ATÉ AO EXAGÊRO – Outro aspecto do trabalho do inconsciente é o do aumento da dramatização e simbolização, a partir de estímulos, às vezes mínimos, imperceptíveis, talvez só hiperestesicamente captados.

O fenômeno foi provocado experimentalmente por Alfred Maury L. F, provavelmente o melhor pesquisador dos sonhos neste aspecto do talento. Maury pedia que quando adormecido, outra pessoa lhe causasse diferentes excitações pequenas. Comparando depois o sonho com o pequeno estímulo, era possível à base de muitas experiências deduzir o comportamento do inconsciente.

Assim, por exemplo, faziam-lhe cócegas, delicadamente, com uma pena de ave nos lábios ou no nariz. E Maury sonhava que o estavam submetendo a um horrível suplício, que lhe colocavam uma máscara de piche na face e que depois a arrancavam violentamente, levando juntamente a pele dos lábios, do nariz e do rosto.

Em outra experiência, a certa distância do ouvido do Maury, adormecido, riscava-se suavemente uma pena de aço com uma tesoura. Sonhava então que ouvia o barulho de sinos, que aos poucos aumentava até converter-se num toque ensurdecedor. Acreditava estar na revolução francesa de 1848.

Ainda na mesma ordem de coisas: destampava-se um vidro de água de colônia perto do adormecido Maury. Sonhava então que se achava numa perfumaria do Cairo, onde lhe aconteciam aventuras as mais pitorescas.

Ou então acendiam perto dele um fósforo, e Maury sonhava que estava no mar, no meio de um vento violento, e que um raio fazia explodir o depósito de munições do barco, pondo a tripulação em extremo perigo.

Na literatura onírica é célebre o seguinte sonho produzido casualmente por um estímulo externo.

Maury estava na cama, doente. Sonhou que se encontrava em meio dos terrores da revolução francesa. Depois de cenas terríveis, era conduzido perante o tribunal revolucionário, para um amplo e angustioso interrogatório. Condenado à morte, entre uma imensa multidão levavam-no ao cadafalso. Via com calafrios os preparativos da guilhotina. Atado ao cepo, sobe a lâmina, cai, e Maury sente como a cabeça se afasta do tronco. Em terrível angústia acorda, e compreende a origem do sonho. Mexendo-se quando dormia, tinha feito com que um dos suportes das cortinas da cama caísse sobre seu pescoço.
Um simples estímulo foi assombrosamente dramatizado.

COMUNICÕES DOS MORTOS? – Em certos ambientes, a dramatização tipo “comunicações dos mortos” é bastante freqüente. A difusão da superstição espírita é a causa de que o inconsciente adote este tipo de dramatização, dado a tendência que tem o inconsciente de acomodar-se ao meio ambiente.

Um jovem lembrava-se de que seu defunto pai tinha comprado e pago um pequeno terreno, mas não tinha podido ele herdá-lo por não possuir os documentos legais nem saber onde poderiam estar arquivados. Em processo judicial estavam-lhe disputando a posse, com manifesto perigo de perder ele o terreno. Preocupado, dormia na véspera do julgamento. Sonhando, viu seu pai, que lhe dizia estarem os documentos em casa de certo tabelião aposentado. Acordando, quis comprovar se era certo, e com efeito lá estavam documentos com os que venceu o pleito.

Trata-se do que chamávamos criptomnésia, i. é, “memória oculta”, tão esquecido, que quando se lembra não parece lembrança. O inconsciente, excitado pelo perigo de perder o terreno, encontrou a lembrança arquivada do que o pai, quando vivo, tinha falado do assunto (Ainda caberia acudir a HIP e à Telepatia sobre o pai quando estava vivo, sempre vivo sobre vivo). Em sonhos o caso é dramatizado como um caso da inexistente comunicação dos “espíritos” dos mortos Lembre o leitor: ponho sempre “espírito” entre aspas porque não há espírito humano sem corpo, mortal ou ressuscitado)

Uma menina, passeando um dia com seu irmão, perdeu um canivete de muita estimação para ela. Passado algum tempo, este irmão morre. Uma noite a menina sonha que seu irmão a leva pela mão ao lugar exato onde está o canivete. A menina acorda, vai ao lugar sonhando e encontra o canivete.

Compreende-se -acrescenta o Dr. José Grasset- quão difícil será convencer esta menina de que não se trata de uma revelação de além-túmulo. E não obstante é um singelo caso de lembrança inconsciente.

As elucubrações do inconsciente podem produzir resultados tão extraordinários, de aparência tão completamente nova, de origem tão inconsciente, com funcionamento tão independente da vontade e advertência do sensitivo, que facilmente se prestam a superstições. Que natural o raciocínio de Helena Smith atribuindo a verdadeiros habitantes de Marte tudo o que seu inconsciente lhe manifestava durante o transe…

Como bem adverte Flournoy, “o eu inconsciente das médiuns é plenamente capaz de inventar um conjunto tão perfeito, que tenha as melhores aparências de comunicações do além. Verdade demasiado esquecida em certos ambientes: pessoas perfeitamente normais e sadias quanto se queira, ao menos em aparência, pelo simples fato de entregar-se às práticas mediúnicas podem romper facilmente o seu equilíbrio psíquico e dar lugar a uma atividade automática. Os resultados do automatismo simulam da mais perfeita maneira comunicações de além-túmulo, não sendo na realidade mais do que resultados do funcionamento inconsciente das faculdades ordinárias”.

Deve destacar-se a sensação de absoluta independência entre consciente e inconsciente. O Pe. Almignana a custo conseguia responder às invectivas que seu inconsciente lhe dirigia e que com sua própria mão escrevia em movimentos automáticos. O padre não conseguia explicar como podiam encontrar-se nele mesmo, dois “eu”, o “eu” inconsciente e o “eu” consciente, tão abertamente contrários um ao outro.

É esta sensação de estranheza, de modo especial, a que em épocas antigas levou muitas pessoas a pensarem que alguns sonhos eram mensagens sobrenaturais (oniromancia).
Ainda não há muitos anos era freqüente atribuir o sonambulismo hipnótico ao demônio, etc., não sabendo explicar nem o talento do inconsciente, nem a independência e até aparente aspecto contraditório, na realidade complementar, entre consciente e inconsciente.

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